O presidente Lula anunciou, eufórico, que 2005 não será o do "espetáculo do crescimento", mas "o ano do desenvolvimento brasileiro, o ano em que as coisas vão acontecer com muito mais fluidez, com muito mais rapidez, com mais tranqüilidade". Fê-lo "otimista, alegre e feliz", imprensado por repórteres. Prometeu que "a economia vai continuar crescendo, os empregos vão continuar aparecendo, a infra-estrutura vai continuar aparecendo". Na oportunidade, prometeu recuperar onze portos, para dar vazão às exportações. "Vamos ter que recuperar gargalos de ferrovias que estavam paradas há anos. E vamos fazer isso em parceria com a iniciativa privada, com dinheiro público, captando recursos onde tiver", disse.

Lula acredita que o Brasil inteiro partilha de sua felicidade. "O Brasil levantou a cabeça", afirmou. Quando um repórter perguntou sobre o fato de esse crescimento não ter sido percebido na área social, o presidente mostrou-se incomodado. E retrucou: "Se não foi percebida a geração de mais de dois milhões de empregos em onze meses, se não foram percebidas 6,5 milhões de pessoas participando do programa Fome Zero, se não foi percebida a aprovação do Estatuto do Idoso, que estava há quatorze anos parado no Congresso Nacional, se não foi percebido o crescimento econômico de 5,3%; quando todos os especialistas imaginavam que a gente não ia crescer mais que 3%, eu não sei quando vai perceber".

O problema está em verificar se esses ganhos festejados por Lula, cotejados com as necessidades que objetivam atender, têm efetivo significado e visibilidade. O otimismo faz parte da técnica de propaganda montada pelos marqueteiros oficiais, que aproveitam qualquer fato positivo, mesmo que irrisório diante do problema que se busca resolver, para criar um espetáculo feérico. Não mais o "espetáculo do crescimento", anunciado precipitadamente. Mas o "ano do desenvolvimento" é algo mais viável.

Lula, com certeza de forma involuntária, enquanto candidato enganou o povo, prometendo mundos e fundos. Acreditava que tudo aquilo com que recheava seus discursos era factível e faria, se ganhasse as eleições. No governo, viu dificuldades quase intransponíveis para dar ao povo a paga que prometeu para conquistar o mandato. Desculpou-se e lamentou por diversas vezes, aceitando que governar era muito mais difícil do que havia imaginado.

Mas o País não pára, com ou sem Lula. E move-se mais ainda, tendo um presidente que sabe estar com um débito gigantesco para com a nação, a promissória que assinou durante a campanha. Não estamos iniciando o ano de 2005, mas a segunda metade do governo Lula, o que é mais importante. A primeira, a despeito dos feitos enumerados pelo presidente, não foi das mais felizes e as conquistas não foram devidamente percebidas. Houve ganhos pontuais e talvez os resultados da balança comercial sejam os únicos que receberam aplausos gerais, por sua visibilidade.

Não foram dois anos brilhantes, mas o que importa é que estamos iniciando a segunda metade do mandato presidencial. E, aí, terão de ser dois anos de ganhos efetivos, sem perda de tempo. Dois anos em que se realize o que ficou perdido na incapacidade, nas indecisões, nos erros, nas infindáveis reuniões e na garimpagem contínua dos caminhos viáveis, que marcaram a primeira metade do governo.

É possível que este seja, de fato, o "ano do desenvolvimento", não porque os fatos e números anunciem, mas porque é o começo do fim de um governo que ambiciona continuar, reelegendo-se.