Aqui nesta terra, onde canta o sabiá, come-se pizza comemorando a palhaçada de frustradas cassações de mensaleiros, a deputada Ângela Guadagnin, do PT, com gozação em cima da dignidade surrupiada do Congresso e do povo, dança no plenário da Câmara. A cena da caricata figura sambando em plenário para festejar a absolvição de um correligionário dos muitos que embolsaram mensalões e importâncias elevadas não declaradas à Justiça Eleitoral, para enriquecimento ilícito ou engordar a votação de partidos e candidatos, que, sem a compra de votos e apoios, seriam ilustres desconhecidos, envergonha este País. E ofende os que ainda têm vergonha, pois cresce o número dos despudorados, em especial na cúpula política, onde escasseia a ética e o interesse público.

A deputada Ângela ?samba no pé? foi afastada da Comissão de Ética da Câmara. Era a única representante petista e, mesmo instada por seus colegas, negou-se a deixar o cargo, embora na votação do relatório pedindo a cassação do mensaleiro Josias Gomes, que pegou R$ 100 mil do valerioduto, nem tenha aparecido na Comissão de Ética. Mandou sua suplente, Neyde Aparecida, do PT goiano, que pediu vistas do processo. A Justiça é cega e cegos são correligionários deputados, quando a coisa é julgar seus pares. Os acordões funcionaram, as caras-de-pau recebem uma boa dose de óleo de peroba e a suplente pediu vistas, o que significa engavetar por alguns dias a esperança de que mais algum corrupto seja punido com a cassação.

Mas o ditado é que há males que vêm para o bem. O samba da pizza e, agora, o caso da quebra de sigilo bancário de quem acusava o ex-ministro Palocci de freqüentar uma casa suspeita em Brasília, onde se reunia a ?gang? que cercava o comandante da Fazenda, estão mudando alguma coisa. No caso do samba da petista, criou-se um clima menos favorável ao perdão generalizado para os mensaleiros, como se nada de grave tivessem feito com o sistema eleitoral e com o povo, pois se elegeram e funcionaram em suas atividades parlamentares movidos pelo combustível do dinheiro escuso. No caso do ministro, deu demissão e há quem imagine que também dará punição, pois se fala em a Polícia Federal tudo investigar e o Ministério Público denunciar os responsáveis pela quebra de sigilo bancário e velhas negociatas da turma de Ribeirão Preto. Por outro lado, houve uma penca de elogios feitos pelo presidente Lula ao ministro demitido. É ver para crer, mas é certo que os dois episódios, da deputada que dançou literalmente na Câmara e do ministro que dançou na equipe do governo Lula, podem ter mudado um pouco o clima de condescendência, de indulgência instalado em Brasília.

Tudo isso nos leva a um raciocínio já feito antes por analistas e adversários do governo. Que a formação de esquerda extremada do movimento que com Lula chegou ao poder leva à idéia de confusão entre o que seja público e o que seja privado. Como no sistema socialista implantado em vários países, por muito tempo, na forma de comunismo, os interesses do partido que se deseja único e do Estado, que abomina bens e direitos privados, as coisas tendem a se misturar. Dançar na gafieira ou no Congresso não indica pecado, mas a festa de quem se vê no grupo que comanda o País, a onipotência. E, por isso, podem mofar da dignidade do parlamento e do que ele representa na democracia: o governo do povo, pelo povo, para o povo.

Pegar dinheiro não se sabe de onde, mas apenas por onde (via valerioduto) para pagar campanhas eleitorais e comprar votos e apoios também não é pecado nesses regimes em que os direitos privados são engolidos pelo que consideram o direito público, do Estado e de seus mandantes, absoluto. Direito de fazer o que bem entendem, inclusive chafurdar as contas de cidadãos, sem autorização da Justiça, desrespeitando sua privacidade. O Estado, representado pelo governo do sonhado partido único tudo pode. Os cidadãos são apenas seus instrumentos e estão a seu serviço, incondicionalmente.