São Paulo – Este ano foi excelente para o crédito. Fascinado pela maior oferta, o consumidor usou todos os instrumentos disponíveis – do consignado ao CDC – e continua ávido por dinheiro. O resultado: o saldo creditício passou de 27 2% do Produto Interno Bruto (PIB) em janeiro e deve fechar dezembro com algo em torno de 30%. Entretanto, para os analistas são justamente os fatores que puxaram o mercado em 2005 que inspiram um maior cuidado em 2006. A análise comum é a de que a oferta pujante deste ano ainda não encontrou a contrapartida necessária da renda e, dadas as expectativas para o crescimento do País, não encontrará em 2006, o que pode desembocar numa indesejada alta da inadimplência e em um já esperado racionamento da oferta.
"O nível de endividamento já passou do limite e isso deve explodir numa alta considerável da inadimplência em algum momento de 2006. Provavelmente, a partir do segundo trimestre, quando tiver passado o pico de atrasos nos pagamentos por conta do Natal", afirma Dirceu Bezerra, sócio da Rosenberg & Associados.
De acordo com a Serasa, em outubro o volume de cheques devolvidos aumentou 15,9% em relação ao mesmo período de 2004 – a segunda maior alta desde 1991. A mesma pesquisa também mostrou um crescimento na regularização de pendências, que subiu 11%, maior dado dos 11 meses anteriores. "É bom o sinal de que o consumidor está saldando dívidas. Mas o ideal é que a quitação venha em conjunto com um queda da inadimplência, o que ainda não foi verificado", diz Luiz Paulo Fávero, professor da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Programa de Administração de Varejo (Provar).
Para o acadêmico, não há ainda um risco de explosão de inadimplência no próximo ano – fator determinante para oferta e, por conseguinte, para o consumo -, mas os índices de atraso devem se agravar em 2006. "Talvez a inadimplência inicie o ano menor, dado que o Natal de 2004 foi mais forte, mas o nível de endividamento em conjunto com a renda estagnada pode provocar um aumento mais consistente ao longo do ano", diz, lembrando que em 2005, principalmente no segundo semestre, já se verificou um aumento contínuo do número de inadimplentes.
De acordo com dados do Banco Central (BC), nos últimos 12 meses o crédito com recursos livres destinado às pessoas físicas não apresentou variação na inadimplência. Porém, quando olhado o dado do terceiro trimestre, observa-se um aumento de 0 6% no indicador. "É natural que a alta se prolongue, caso a renda não sofra uma retomada", afirma.
Para Fávero, a queda da Selic também não deve surtir um efeito expansionista considerável, por conta dos repasses pequenos feitos pelos bancos quando há queda na taxa. O efeito da redução da taxa básica, segundo ele, deve se dar muito mais nos prazos dos crediários, para os quais se espera uma redução. "E o impacto, naturalmente, deve se dar mais no consumo de bens duráveis, que possuem valor mais alto e, portanto, exigem prazos maiores", explica.
Outro fator de risco a ser olhado com cuidado em 2006 é crédito consignado, que tem sustentado o consumo mas tem elevado consideravelmente os níveis de endividamento. "O consignado deu maior fôlego para que o brasileiro se endividasse, mas essa oferta grande já começa a aparecer no atraso de condomínios e contas de consumo", afirma Bezerra, da Rosenberg & Associados.
Com relação ao consignado, Fávero guarda outra avaliação que mostra a fragilidade que ainda se percebe no mercado creditício. Lembrando que foi o consignado a grande estrela de 2005, o professor da USP se pergunta qual será o novo incentivador do sistema no próximo ano. "O consignado também revela uma distorção porque, enquanto estivermos falando de níveis de renda tão baixos e desemprego em nível tão alto, vamos precisar sempre de mecanismos novos para manter o consumo num nível razoável", afirmou.


