O ministro Nelson Jobim, da Defesa, está mostrando a que veio. Determinou a abertura de processo disciplinar contra a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), visando esclarecer a maneira pela qual a Justiça recebeu documento sem valor legal para suspender a interdição da pista principal do Aeroporto de Congonhas.

A decisão foi anunciada durante reunião da Comissão de Infra-Estrutura do Senado, da qual também participava o presidente da Anac, Milton Zuanazzi. De pronto, a medida passou a servir de indicativo da opção já tomada pelo Planalto sobre o afastamento do presidente e da diretora Denise Abreu, da citada agência. Esta acabou renunciando ao cargo.

O processo disciplinar para investigar a responsabilidade da diretoria da Anac tem lastro na lei de criação das agências reguladoras, ademais de constituir um dos elementos básicos para a interrupção dos mandatos. No caso da Anac, os diretores têm mandato até 2011, um ano a mais que o presidente da República.

A afastada diretora Denise Abreu admitiu diante da CPI do Apagão Aéreo que o processo é ?oportuno? e afigura direito legítimo do ministro da Defesa, mas isentou-se de quaisquer responsabilidades pelo fato de o documento ter chegado às mãos da desembargadora. Deve ter sido excesso de zelo, desculpou-se.

Por sua vez, Zuanazzi, ao ser surpreendido pela revelação de Jobim, asseverou que o inquérito permitirá aos diretores investigados exibir a versão integral da agência sobre a problemática da aviação comercial.

Todo o amargo ressentimento entre quadros importantes do mesmo governo seria evitado, se a diretoria da Anac concluísse que a contribuição mais eficaz tivesse sido a renúncia coletiva, depois do acidente de Congonhas.

Como poucas vezes na história deste País viu-se apego tão extremado a cargos públicos, de resto, bem remunerados e, mais que isso, blindados pela extraordinária vantagem negada à maioria absoluta dos trabalhadores, de garantia empregatícia.

Convencido que os diretores da Anac não se afastariam por vontade própria, o ministro teve paciência e esperou o momento certo de agir, talvez com a percepção do surgimento de alguma brecha. E ela veio na reclamação da magistrada federal Cecília Marcondes, ao declarar-se ?enganada? por informação não oficial sobre a proibição do pouso de aviões em Congonhas, com um dos reversos travados. Cabeças a prêmio.