Um número cada vez maior de pessoas está trocando os pratos tradicionais da nossa culinária, como a feijoada, o churrasco e o virado à paulista, por uma dieta à base de derivados de soja, peixes de água fria, fibras alimentares, legumes es frutas. São adeptos dos alimentos funcionais, aqueles que, além de cumprirem suas funções nutricionais básicas, quando consumidos como parte da dieta usual, produzem efeitos benéficos à saúde. Por serem alimentos, e não remédios, podem ser consumidos de forma segura sem supervisão médica.

O emprego dessas dietas na redução do risco de doenças cardiovasculares, câncer, hipertensão e diabetes, além do controle da obesidade, foi discutido durante o I Simpósio da Sociedade Brasileira de Alimentos Funcionais (SBAF), encerrado sábado (9), em Piracicaba, interior de São Paulo. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que essas doenças são responsáveis por mais de 70% da mortalidade nos países desenvolvidos e cerca de 40% naqueles em desenvolvimento.

De acordo com a presidente da SBAF, Jocelem Mastrodi Salgado, cerca de um terço dos casos de câncer estão relacionados à dieta. "Além da relação com as doenças crônicas, há forte evidências do papel da dieta em melhorar a performance mental e física, retardar o processo de envelhecimento, auxiliar na perda de peso e na resistência às doenças." Segundo ela, a busca por hábitos alimentares mais saudáveis, com a redução do sal, gordura e açúcares, e aumento no consumo de grãos, frutas e vegetais, não é um fenômeno recente.

A novidade, lembra, está nessa nova fronteira que se abre ligando a nutrição e a medicina. "A descoberta de que certos alimentos contêm componentes ativos, capazes de prevenir e controlar doenças, inclusive o câncer, faz com que essa ciência se associe à medicina e ganhe uma dimensão extra." Esse novo conceito surgiu no Japão na década de 90 e está bastante difundido na Europa, mas chegou há pouco tempo no Brasil. "Embora tenhamos legislação sobre alimentos funcionais desde 1999, a população está tomando conhecimento só agora."

Entre os alimentos mais investigados estão os compostos da soja. "Existem evidências conclusivas de que as proteínas do grão reduzem os níveis de colesterol e melhoram a elasticidade dos vasos, prevenindo doenças cardiovasculares", afirmou a pesquisadora Andréa Dario Frias. Além de ser fonte de fibras e ácido linoleico, que aumenta a massa muscular, a leguminosa contém saponinas e ácido fítico, substâncias que reduzem o colesterol e ajudam a reduzir o risco de câncer.

Possui ainda isoflavonas, responsáveis pelo alívio dos sintomas da menopausa e pela redução do risco de câncer de mama e próstata. Os chamados peptídeos bioativos ajudam a retardar o envelhecimento e a emagrecer.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reconheceu oficialmente que o consumo diário de no mínimo 25 gramas de proteína da soja pode ajudar a reduzir o colesterol, lembrando que o consumo deve estar associado a uma dieta equilibrada e hábitos de vida saudáveis.

Centros de pesquisas do setor agrícola, como a Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias (Embrapa), trabalham para desenvolver variedades de alimentos funcionais com alta concentração de componentes benéficos, como o tomate com maior teor de licopeno, ou para melhorar o paladar. O alho, por exemplo, é tido como eficiente na prevenção de inúmeras doenças, inclusive o câncer gástrico, mas deve ser consumido cru, pois perde suas principais substâncias benéficas a uma temperatura de 50 graus. O principal problema é o sabor forte. "A pesquisa agronômica conseguiu desenvolver uma variedade com sabor atenuado, que não deixa gosto na boca", disse Jocelem.

Para o professor Franco Latojo, titular do Departamento de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), há uma relação estreita entre o que se come e as doenças. O desafio tem sido adequar os alimentos funcionais aos hábitos dos consumidores nos meios urbanos e aos interesses econômicos da indústria. "Sabemos que algumas frutas e verduras fazem bem, mas precisam ser consumidas em grandes porções, 8 ou 9 vezes por dia."

A saída, segundo ele, tem sido agregar esses compostos, como carotenóides, flavonóides, saponinas e outros, em produtos de fácil consumo. "Esse é o papel da indústria farmacêutica." No Brasil, segundo ele, grandes empresas nacionais e multinacionais vêm investindo no setor. "Está aberto um campo de pesquisa importante relativo à elaboração de alimentos dirigidos à saúde."

Para o professor Fernando Moreno, da USP, a adoção de dietas adequadas, aliada a mudanças de hábito como deixar de fumar, pode ajudar a prevenir o câncer. Ele apresentou dados da Organização Mundial da Saúde indicando que o aumento global da população e o estilo de vida ocidentalizado podem resultar num aumento de 50% na incidência de cânceres nas próximas duas décadas. "Dessa forma, estima-se que o número de casos novos aumentará 50% até o ano de 2020." Destes, um terço pode ser prevenido principalmente com mudanças de hábitos alimentares.

Eficácia deve ser comprovada

O termo alimento funcional foi utilizado pela primeira vez no Japão para destacar a finalidade diferenciada dos alimentos em benefício da saúde. São alimentos identificados pela sigla Foshu (Foods for Specified Use), ou seja, alimentos com funções específicas no organismo.

Segundo a pesquisadora Patrícia Fukuma, do Instituto Brasileiro de Educação para o Consumo de Alimentos (IBCA), em 1999 foi criada junto à Câmara Técnica de Alimentos da Anvisa uma comissão para assessoramento técnico e científico em alimentos funcionais. Para obter a rotulagem é preciso comprovar cientificamente a eficácia de seus componentes, não sendo permitidas alegações que façam referências a curas.

As alegações já aprovadas pela Anvisa contemplam os ácidos graxos da família ômega 3, encontrado em óleos de canola e girassol, peixes de água fria de origem marinha como o salmão, e alguns vegetais de folhas verdes, como repolho, espinafre e brócolis. Também foram aprovadas as fibras alimentares, o licopeno do tomate, goiaba vermelha, melancia e mamão papaia, e a luteína, também presente em folhas verdes.

A Anvisa reconheceu que o consumo de ácidos graxos ômega 3 auxilia na manutenção de níveis saudáveis de triglicerídeos. Já o licopeno e a luteína têm ação antioxidante que protege as células contra radicais livres. As fibras alimentares auxiliam o funcionamento do intestino. O consumo, no entanto, deve estar associado a uma dieta equilibrada e hábitos de vida saudáveis.