A rede estadual do Paraná serve cerca de 1,5 milhão de refeições por dia para aproximadamente 1,2 milhão de estudantes. Atualmente, quase 40% dos alimentos utilizados na alimentação escolar vêm da agricultura familiar, modelo que ganhou espaço nos últimos anos e passou a ser associado não apenas à nutrição, mas também ao rendimento dos alunos em sala de aula.
Dados da Secretaria de Estado da Educação mostram crescimento no investimento em produtos da agricultura familiar. Em 2021, foram destinados cerca de R$ 60 milhões para a compra desses alimentos. Em 2025, o valor chegou a R$ 187 milhões, mais que o triplo do registrado quatro anos antes. O volume adquirido também aumentou: passou de 10,5 milhões de quilos em 2021 para 20,8 milhões de quilos neste ano.
A discussão ganhou novo fôlego após um estudo publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2024, apontar que escolas públicas que ampliaram a oferta de alimentos frescos registraram melhora de até 3,3 pontos em matemática e quase 3 pontos em português nas avaliações do Saeb.
Responsável técnica da Divisão Técnica de Alimentação Escolar do Fundepar, Andrea Bruginski afirma que o Paraná ainda não possui um levantamento específico relacionando alimentação e desempenho escolar na rede estadual, mas diz que os resultados nacionais ajudam a ampliar o debate.
“A oferta crescente de alimentos da agricultura familiar caminhou junto com melhores índices do Ideb no estado. Com base no estudo do Ipea, pode-se inferir que a alimentação escolar advinda da agricultura familiar tenha sua parcela de importância”, afirma.
Ela ressalta, porém, que o aprendizado depende de vários fatores além da alimentação, como estrutura das escolas, qualificação dos professores e serviços de apoio aos estudantes.
Especialistas relacionam alimentação saudável ao rendimento escolar
Para especialistas da área da saúde, a relação entre alimentação e desempenho cognitivo já é amplamente discutida na literatura científica.
A médica nutróloga Ana Claudia Portes Nascimento afirma que estudos internacionais e metanálises mostram associação entre dietas pobres em nutrientes e pior rendimento escolar. “O cérebro de crianças e adolescentes está em intenso desenvolvimento e depende de nutrientes adequados para funcionar corretamente”, explica.
Segundo ela, alimentos frescos ajudam a fornecer vitaminas, minerais e fibras importantes para a memória, concentração e aprendizagem. Já o consumo frequente de ultraprocessados pode trazer o efeito contrário.
“Quando pensamos nos alimentos ultraprocessados, pensamos em excesso de açúcar, sódio e gorduras. São alimentos pobres em nutrientes e que, em excesso, podem gerar deficiências importantes para o desenvolvimento cognitivo”, afirma.
A professora Regina Maria Ferreira Lang, professora de Alimentação Escolar do Departamento de Nutrição da UFPR, também destaca que refeições equilibradas ajudam a manter níveis estáveis de glicose no sangue, favorecendo atenção e disposição durante as aulas.
“Deficiências nutricionais, insegurança alimentar ou excesso de ultraprocessados podem gerar fadiga, dificuldade de concentração e, consequentemente, pior rendimento escolar”, afirma a pesquisadora.
Agricultura familiar amplia oferta de alimentos frescos
Segundo o Fundepar, a alimentação escolar da rede estadual prioriza alimentos in natura, como arroz, feijão, carnes, frutas, verduras e legumes. Andrea Bruginski afirma que os cardápios também procuram respeitar hábitos alimentares regionais e culturais dos estudantes.
Outro ponto destacado pelo governo estadual é a compra de alimentos da agricultura familiar. Atualmente, 25% desses produtos são orgânicos ou de base agroecológica.
Para Regina Lang, além da questão nutricional, a política também tem impacto social e econômico. “A compra de alimentos da agricultura familiar favorece maior oferta de alimentos frescos, diversificados e regionais, reduzindo a dependência de ultraprocessados”, afirma.
Ela lembra ainda que a alimentação escolar pode influenciar hábitos alimentares que ultrapassam os muros das escolas. “Muitas crianças passam a experimentar alimentos que não consumiam em casa e podem influenciar hábitos da família”, diz a professora da UFPR.
Apesar dos avanços, especialistas avaliam que ainda existem desafios para que a alimentação escolar contribua de forma mais ampla para saúde e aprendizagem. Entre eles estão educação alimentar, aceitação dos estudantes, infraestrutura das escolas e redução do consumo de ultraprocessados.
“O maior desafio está em criar consciência alimentar nas escolas e fazer com que crianças e adolescentes estejam abertos a experimentar novos alimentos e preparações diferentes”, afirma a nutróloga Ana Claudia Portes Nascimento.
