Deus não é inimigo de Saddam, nem aliado de Bush contra o resto do mundo. Assim como Alá deve a todos os homens querer bem, não importa a língua que falem, nem a parte do planeta em que habitem. Não faz sentido colocar qualquer divindade no meio dessa loucura em que o mundo foi transformado com o conflito entre os Estados Unidos e o Iraque – o berço de parte da história mais antiga conhecida da epopéia humana. Nem todo o petróleo do mundo paga esse triste espetáculo que se levanta nas colunas de fogo, fumaça e pó em cada explosão telecomandada sob a supervisão de algum satélite.

Vimos a guerra nascer pela televisão e em cores. Lenta e progressivamente, nos intermináveis debates de altos funcionários de estados independentes. Do Ocidente ao Sol Levante, todos viram. E todos os recursos do mundo – e isso nos envergonha – não conseguiram evitá-la. Nem a diplomacia, nem os protestos, nem os fiscais de armas, nem os apelos de pacifistas onipresentes. Faliu a Organização das Nações Unidas, criada ao final da última Grande Guerra para gerenciar a paz no mundo aterrorizado com sua própria catástrofe. Faliu nas mãos de meia dúzia de países com poder de voto e veto, que mal dão a palavra aos demais ali também inutilmente sentados. Uma nova ordem precisa nascer, com força política e respeito incondicional, como uma enorme reunião ao redor de uma grande mesa, onde falem de igual para igual poderosos e pequenos e onde a regra seja ouvir à exaustão antes de qualquer decisão unilateral. Um conselho mundial obcecado pela idéia da paz.

Dizem que esta é a guerra das armas limpas contra o medo da proliferação das armas sujas. Uma maravilha! Ogivas controladas pelos sistemas inteligentes jamais utilizadas produzem o espetáculo assistido on-line em todos os continentes. Comandantes gabolas mal escondem o orgulho causado pelo sucesso ribombante de bombardeios maciços. Quanto maior o estrago, maior o ódio, entretanto, que já nasce com as crianças armadas de fuzis, seguindo o exemplo de pais suspeitos de produzir antraz, irmãos de mártires que se estraçalham pela cintura carregada de explosivos. E fica fácil imaginar que amanhã aquilo que hoje é tido como liberação poderá será lembrado apenas como abominável dominação. Para muitos, o déspota do Iraque é herói. E, assim martirizado, será fonte e motivação de novas hordas de terroristas ainda mais ferozes, ainda mais ousados.

Além da guerra de bombas há a guerra da informação. Uma guerra que divide muito mais que aglutina, que apaixona e inflama mentes e corações, que cega multidões, transformando-as em fanáticos incondicionais e desprovidos de qualquer razão. O mundo já está dividido entre os que são contra os Estados Unidos e os que são a favor da superpotência que esnoba sua hegemonia sobre o universo como se estive num desfile ou numa amostra; entre os que são contra ou a favor do Iraque – uma nação dizimada por outras guerras, conduzida e explorada como se fosse propriedade privada do déspota Saddam. Entre o bem absoluto e o mal inconteste já não vão meias tintas.

Nessa guerra da vergonha é preciso ousar mais que a tecnologia que fascina ou a astúcia que intriga, a ponto de deixar para segundo plano os sacrifícios de vidas já contabilizados e todas as mortes e sofrimento que ainda estão por vir. É preciso reaprender uma lição esquecida em algum pergaminho antigo da Mesopotâmia ou ignorada no mar de bytes que circulam pela internet na língua oficial do Vale do Silício: com Nabucodonosor, Hitler, Stalin, Saddam ou Bush, o homem continua o mesmo. Físicas, químicas, bacteriológicas ou cibernéticas, só mudaram as armas.