Depois de batalhas renhidas, afinal acenderam a CPI do Apagão Aéreo na Câmara dos Deputados. Requerida, admitida e engavetada para depois ser restaurada por ordem do Supremo Tribunal Federal, teve o presidente Lula e todo o governo como bombeiros, tentando evitar fosse acesa. O motivo é que o problema nos transportes aéreos brasileiros, que começou com a queda do avião da Gol e centena e meia de mortos e continua com intermitentes crises, já vinha fazendo o povo desconfiar que muita coisa e alguém estavam se escondendo. Era uma crise de explicações raras e precárias, nunca aparecendo responsáveis a não ser aqueles que eram indigitados em jogos de empurra. E o presidente Lula, segundo recente pesquisa, parecia de inocência angelical, embora todo o sistema aéreo emperrado esteja sob o comando do governo federal.

Na Justiça, à qual recorreram os partidos de oposição, houve repetidas ordens para que a CPI, ou melhor, as CPIs, pois outra foi requerida para funcionar no Senado, fossem instauradas. Motivos: estava havendo um cerceamento dos direitos das minorias que, no sistema democrático têm de ser respeitados; o povo e os passageiros que passam horas e dias no aguardo de um vôo que não chega ou não sai, têm direito de saber o que está acontecendo. Como na formação de colegiados, como uma CPI, regras privilegiam as bancadas mais numerosas e a mais numerosa é a do PMDB, é este partido o que mais membros inseriu na comissão ou indicou do próprio PT, para selar a aliança que tem firmada com o governo. O PMDB, por seu porte, não é mais um partido do situacionismo, mas o partido do situacionismo, com a maioria dos cargos de primeiro e segundo escalões e já com vaga reservada para disputar, com um de seus membros, a próxima sucessão presidencial.

O deputado Marcelo Castro (PMDB-PI) foi escolhido por 16 a 8 votos para a presidência da CPI. Foi também escolhido Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para a vice-presidência. O relator será o petista Marco Maia (PT-RS), escolhido pelo presidente peemedebista Marcelo Castro. Mas juram de pés juntos que não será uma Comissão Parlamentar de Inquérito ?chapa branca?, embora se saiba que Lula chegou a ser consultado sobre quem seria indicado e que posição ocuparia. A oposição chegou a indicar, como protesto, o deputado Vanderlei Macris (PSDB-SP) para a presidência do apagão aéreo. Ele foi o autor do requerimento que pediu a instalação da comissão.

?É a única maneira democrática de realizarmos os trabalhos. Queremos ver a CPI funcionar de maneira diferente de quando o governo rechaçou no plenário da Câmara as investigações?, disse o tucano.

Como candidato governista vitorioso, Castro prometeu trabalhar de forma imparcial, sem favorecer o Palácio do Planalto nas investigações. ?O regime democrático não pode massacrar nem desprezar a minoria. Acredito que o bloco do governo tem essa compreensão da CPI. Queremos conduzir os trabalhos com toda a imparcialidade e transparência?, jurou de pés juntos o presidente Castro.

Ocorre que, no nosso mundo político, parlamentares muitas vezes são como birutas, mudando ao sabor do vento ou dos seus interesses. Um bom exemplo é dar uma olhada no passado político dos membros da CPI. O deputado Wladimir Costa (PA), um de seus titulares, chegou a ameaçar apedrejar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2004, durante discussões sobre o reajuste do salário mínimo. Naquela época ele chegou a dizer que se Lula ?for participar com esse aumento desgraçado que ele quer dar para o trabalhador brasileiro, é melhor nem sair de casa (…) porque até eu, como deputado federal, pego uma pedra e jogo no meio da careca dele?. Mas Lula nem é careca nem seus inimigos de ontem são adversários hoje. E se pedras forem lançadas pela CPI, encontrarão mais corvos no ar que aviões nas rotas aéreas tortas do País.