A história das lutas da classe trabalhadora, no mundo ou em nosso país, são incidentalmente enfocadas nos cursos de Direito do Trabalho, referenciando fatos históricos de maior magnitude como, por exemplo, o 1.º de Maio, consignado como o Dia Internacional do Trabalho. As referências da história paranaense calcadas nos acontecimentos relacionados com os trabalhadores são quase inexistentes, ou absolutamente desconhecidas. No mesmo sentido, os estudos que resgatem tais acontecimentos também são escassos. Por isso, deve ser saudada a publicação do livro Maringá e o Norte do Paraná – Estudos de História Regional (Editora da Universidade Estadual de Maringá, 2001), organizado pelos professores Reginaldo Benedito Dias e José Henrique Rollo Gonçalves, onde estão inseridos alguns capítulos relacionados com o movimento dos trabalhadores: “Lutas sociais e conflito político: alguns temas da história de Maringá (o II Congresso de Trabalhadores Rurais e a formação da Frente Agrária Paranaense)”, de Ângelo Priori; “Os trabalhadores e a esquerda na resistência à ditadura militar: a greve geral de outubro de 1968 em Maringá”, de Reginaldo Benedito Dias; “O trabalhador rural volante (“bóia-fria”) na região de Maringá, nos anos 70″, de Iolanda Casagrande.

Destes três estudos, de igual importância, destaco a cuidadosa análise e pesquisa empreendidas pelo professor Reginaldo Benedito Dias, da UEM, sobre a greve geral de outubro de 1968 em Maringá, parte de sua dissertação de mestrado em História na Unesp -Assis. Transcorridos mais de trinta de três anos, aqueles fatos têm significado como memória do posicionamento de alguns segmentos da classe trabalhadora em um momento singular da vida sindical e política, então dominada pelo setor militar. Entretanto, embora o tempo tenha esmaecido a fotografia, os traços mais relevantes são muito nítidos se comparados com a realidade atual. E é, neste sentido, que o estudo acadêmico busca seu referencial, a saber (a) a interligação da luta econômica dos trabalhadores embasada em uma orientação de resistência política (b) o caminho institucional, via sindicatos (c) o descumprimento de normas trabalhistas que ocasionaram a revolta operária (d) a radicalização da luta institucional (e) o detalhamento das mobilizações e das formas organizativas (e) a greve como direito, mas, antes de tudo, como fato imposto pelas contradições capital-trabalho (f) as negociações e os resultados objetivos.

A primeira greve foi deflagrada a 1.º de outubro de 1968 no setor da indústria de alimentação, seguindo-se a greve do setor bancário. Embora restrita a esses setores, a greve pretendia alastrar-se pela cidade, como anota o prof.Reginaldo Dias em sua monografia: “Deflagradas como contestação aos baixos salários e às condições de trabalho, essas greves adquiriram, naquela conjuntura, contornos mais complexos. Tratou-se da tentativa de articulação de uma greve geral, fato que significava, na forma e no conteúdo, resistência e enfrentamento com as políticas da ditadura militar. Por um lado, a mobilização transgredia, especialmente por ter aspirado a ser uma greve geral, os limites que o universo institucional da ditadura, através de expedientes crescentemente coercitivos, estabelecera para a atuação do movimento sindical e da sociedade civil em geral. Por outro, colocava em xeque as políticas econômicas vigentes, caracterizadas pela introdução de acentuado arrocho salarial”.

É, portanto, um roteiro didático, não apenas indicativo dos caminhos para o conhecimento e debate histórico, mas do estágio das relações de trabalho nos anos iniciais da ditadura militar e dois meses antes do nascimento do Ato Institucional n.º 05, de 13, 12, 1968. Se aqueles fatos se conectassem com os fatos atuais das lutas dos trabalhadores, em situações políticas tão diferentes, poderíamos visualizar algumas similitudes, como (1) o arrocho salarial da época se confunde com a perda salarial acumulada de hoje (2) as condições de trabalho continuam, em muitos casos, extremamente perversas (3) a pressão organizada via entidades sindicais possibilita algum resultado positivo (4) os trabalhadores se organizam politicamente para poder influir no aparelho de Estado e nos governos. Talvez a diferença mais gritante seja a de que, sob a tutela militar, o movimento sindical se esgueirava entre o claro e o escuro da ação social e política, enquanto que hoje o movimento dos trabalhadores é acompanhado através dos meios mais eficientes da comunicação e da telecomunicação, respaldado por fortes organizações sindicais e políticas.

Entretanto, as lições de 1968 examinadas pelo mestre Reginaldo Dias são aplicáveis em 2002, quando o País se mobiliza para as eleições quase-gerais de outubro próximo, dia seis. Naquele mês de outubro, no quinto dia, em edição extraordinária de O Jornal, estava escrito: “Maringá pode parar”, “Greves imobilizam Maringá”. A tentativa de deflagração de uma greve geral em uma cidade do interior do Paraná, ainda não desenvolvida como o é hoje a nossa terceira cidade interiorana em número de habitantes, e em um contexto repressivo, tem um notável resgate no universo científico. Porém, a contribuição de maior relevância se situa no colocar em cena o mundo do trabalho e a figura da classe trabalhadora, hoje postergada a segundo plano nestes tempos neoliberais da supremacia do mercado. Talvez para que não nos esqueçamos de que da roupa que vestimos ao livro que lemos, sempre há a mão e a inteligência de homens e mulheres que trabalharam nessa elaboração. Quando, unidos, reivindicam para si e suas famílias algo melhor em retribuição ao seus esforços, pelo menos lhes devemos respeito. E quanto às suas histórias, pelo menos conhecimento e, muitas vezes, admiração.

Edésio Passos é advogado e assessor jurídico de entidades sindicais de trabalhadores. E-mail: edesiopassos@uol.com.br