O quadro eleitoral deste ano começa a se delinear. Lula é candidato à reeleição. Tentará reunir em torno de si o mesmo grupo heterogêneo que formou o seu atual governo, embora os expedientes utilizados para fazer uma coligação partidária majoritária e obter uma base parlamentar numerosa não mais possam repetir-se com a mesma intensidade. Houve compra de apoios e votos. Isso é uma verdade inconteste, mesmo o Congresso, via acordos espúrios, estar absolvendo os vendidos e não conseguindo identificar claramente os adquirentes. Nem a verdadeira origem do dinheiro, parte do qual deve ter sido obtido de contratos privilegiados ou superfaturados do poder público. Vale dizer, dinheiro do povo. Não dá para pôr a mão no fogo acreditando que a atual campanha será limpa. Antes, pelo contrário. Não é tradição no Brasil praticar campanhas eleitorais dentro dos ditames da lei e da ética. Mas é certo que será, pelo menos no que tange à manipulação dos recursos que a sustentarão, menos poluída com dinheiros escusos.

A tendência é de bipolarização entre Lula e Geraldo Alckmin, este candidato do PSDB e do PFL. Os partidos pequenos irão acomodar-se como puderem e na forma que entenderem melhor para sua sobrevida. A grande dúvida é o PMDB, o maior partido brasileiro. Já foi o maior partido do Ocidente, como vaidosamente proclamavam seus dirigentes, logo depois de haver tomado a frente da dura luta pelo fim da ditadura e redemocratização do País. A agremiação ficou gigantesca, assumindo o poder na União e nos estados e municípios em proporções nunca imagináveis.

Como maior partido do Ocidente, teve mais gente entrando pela porta dos fundos que pela entrada principal. Inflou-se de aproveitadores, malandros, políticos oportunistas e outros indesejáveis, o que manchou profunda, mas não irremediavelmente sua imagem. Mas continuou grande, justamente por viver de portas abertas, sem critérios seletivos na admissão de próceres.

Fora do poder, o PMDB passou a servir-se de acordos em que aderia aos novos eleitos, de outros partidos. É o caso atual, em que participa do governo Lula. A conseqüência dessa posição secundária foi que suas lideranças perderam a identidade e o prestígio político-eleitoral necessários para entrar em novas disputas. Atualmente, o PMDB está decidido a disputar as próximas eleições com candidato próprio, porém dividido, pois uma larga parcela de seus altos próceres continua agregada ao grupo de Lula.

O candidato do PMDB é Garotinho, depois da desistência do governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, que desejava disputar a indicação partidária. A primeira dúvida é se a decisão de candidatura própria vai mesmo concretizar-se. A segunda é se o nome escolhido, o do ex-governador do Rio de Janeiro, terá alguma chance eleitoral. De princípio, não. Ele não tem possibilidades de enfrentar Lula e Alckmin, este sim com algumas condições de crescimento eleitoral.

Com manutenção da verticalização para as eleições deste ano, como decidiu o Supremo Tribunal Federal, o gigantesco PMDB será obrigado a fazer nos estados a coligação que fizer no plano federal. Ou andar pelas próprias pernas. Monta-se, assim, um quadro em que, mais uma vez, o antes maior partido do Ocidente poderá continuar por mais alguns anos como caudatário dos grupos mandantes.