Marta Morais da Costa (PUCPR/UFPR)

As aventuras de um professor em sala de aula só podem ser bem compreendidas à distância. Enquanto se dá a travessia pelas águas conturbadas dos deveres do magistério – preparação de aulas, reuniões, projetos, relatórios, infinitas leituras e correções e reescritas, além das prioritárias atividades na tarefa de transmitir/discutir o conhecimento-pouco tempo sobra para uma reflexão sobre o fazer docente e seus instrumentos.

À medida que o tempo se esvai na sucessão vertiginosa dos números de horas, meses e anos, tomamos consciência das mudanças pelas quais passaram nossos dias em sala de aula, bem como da maneira como assimilamos, ou não, as teorias e os paradigmas, também estes em sucessão vertiginosa. A imersão no tempo presente costuma distorcer a proporcionalidade e mérito de fatos, pessoas, atitudes e pensamentos. Não seria diferente com a escola e seus agentes.

Não faz tanto tempo assim, a tecnologia mais avançada em sala de aula era representada pelo flanelógrafo e pelo projetor de slides. Não faz tanto tempo assim, um sinal de modernidade era a projeção de transparências (lâminas, em algumas regiões do País) em preto e branco e, supra-sumo dos encantos e despesas, a colorida! A era digital rapidamente jogou para o canto escuro das antiguidades esses materiais. Hoje, é com certa sensação de vergonha – e encontrando um ar de mal disfarçada comiseração de nosso interlocutor – que pedimos um retroprojetor para ilustrar, definir melhor, economizar nosso trabalho docente.

As universidades fizeram do instrumental multimidiático um fator de sedução para atrair novos alunos. Quem organiza eventos se prepara com muitas unidades do já popular datashow, escolhendo salas especiais, porque sabe que palestrantes e conferencistas não abrem mão dessa tecnologia. As escolas, no entanto, ainda amargam essa deficiência a mais.

O computador, já sabemos, não veio apenas para facilitar o trabalho docente e a aprendizagem discente. Trouxe consigo um novo modo de ler e nova textualidade. Provocou uma enxurrada de estudos e desencadeou uma reflexão intensa sobre a possibilidade de desaparecimento do livro. Passado o período terrorista, lidamos na atualidade com novas realidades em sala de aula. A tecnologia permitiu aos docentes revelar não o domínio sobre a máquina e a inventividade de formas visuais: demonstrou com grande clareza as deficiências cognitivas e didáticas dos utilizadores de multimídia.

Tenho em minhas retinas da memória a imagem da primeira apresentação em data-show a que assisti. Para iniciar a apresentação, foram necessários um complexo trabalho técnico de montagem e, durante a palestra, a permanente assistência de um especialista em informática. Mas a revelação das imagens e a descoberta das possibilidades comunicativas e sedutoras daquela apresentação marcaram profundamente os neófitos como eu. O novo brinquedo, ou melhor, a nova tecnologia permitia transformar em imagens idéias e, sobretudo, relações inumeráveis. Além de trazer um certo clima cinematográfico ou televisivo para o ambiente radiofônico da sala de aula.

Muitos e muitos slides depois, já me é possível utilizar e conviver com o instrumental (hoje mais simplificado e banal), além de produzir alguma análise sobre seu uso docente.

Em ensaio de 1996, José Dieguez atribuía às imagens três funções básicas: a funções informativa, persuasiva e de catalisação de experiências. Na primeira, abria para quatro subgrupos: o primeiro realiza a substituição de uma realidade concreta, o segundo trata de categorizar os objetos, o terceiro explica e organiza as relações entre objetos, e o quarto facilita a amostragem de informação, porque apenas traduz a linguagem verbal em imagem.

Já a função persuasiva está apoiada em dois tipos de imagem: as motivadoras e as estéticas. A função final, a catalisadora, eu a vivi naquele primeiro contato com a possibilidade de organizar as imagens para transformá-las em material vivo, móvel, docente.

Mas, ao longo de minha experiência, tenho assistido a um uso preferencialmente informativo e pouco estético dessa tecnologia. A cor, as formas, os recursos de som e movimento são utilizados muitas vezes em si mesmos. A fala docente que os acompanha tornou-se repetição da imagem. Não foram poucas as ocasiões em que o professor leu o texto tal qual inscrito na imagem da tela. A função de facilitação redundante, concretizada no uso da multimídia como um retroprojetor animado e colorido, sempre me dá a impressão de uma rubra e macia cereja enfeitando um bolo insosso e pétreo. Enfeite tecnológico para criar um ambiente de modernidade, mascarando conteúdo e prática docente primitivos, deficitários e enganadores.

A associação imediata que um leitor crítico dessa nova linguagem faz, proposta pelo computador, é com a televisão, cheia de recursos de imagem, cor e movimento, tratando do óbvio com obviedade, persuadindo pela redundância, estimulando o olhar catatônico com uma enxurrada de signos visuais primários.

Quando o ensino supervaloriza a tecnologia (por mais rápida e universal que possa ser) em detrimento do saber, podemos estar seguros de que o conhecimento foi se alocar num canto escuro da biblioteca, em livros ainda fechados, fáceis de abrir e movimentar porque não precisam de cliques e teclas.