Já faz algum tempo que Hans Christian Andersen escreveu o conto A pequena vendedora de fósforos. Porém, apesar da distância cronológica que nos afasta do seu conto, é quase impossível esquecê-lo nesta época do ano. Se é bem verdade que já não existem mais pequenas vendedoras de fósforos, afinal, para que eles ainda serviriam? Também é verdadeiro que hoje as pequenas vendedoras que perambulam pelas ruas vendem outras mercadorias. De flores ao próprio corpo, os produtos variam conforme a região, a cultura local e, principalmente, o nível de descompromisso dos cidadãos locais, mais próximos. Não é de se espantar que, passados tantos anos do conto, ainda teremos, em pouco mais de uma semana, crianças sem absolutamente motivo algum para comemorar o ano novo, tal qual na narração de Andersen.

No referido conto a menina queima um a um seus palitos de fósforos para que sua alma possa, assim como seu corpo, manter-se aquecida. Ao acender o último dos palitos, a menina finalmente realiza o maior dos seus desejos – encontrar a avó, já falecida anos atrás. O limite da narrativa é muito tênue, entre a vida e a morte da personagem. Há, em alguns momentos, quase que uma confluência entre elas. Vida e morte dialogam, entrelaçam e se manifestam, ora em atos racionais como acender os palitos; ora em delírios como desejar plasmar aquilo que é delírio.

Considerado um dos inauguradores da literatura infantil no ocidente, Andersen criou contos de uma riqueza literária desprovida de moralismos, utilizando uma linguagem do cotidiano, acessível à leitura da criança e do adulto. Os relatos dele pertencem a uma linha temática que trata de questões existenciais do ser humano. Quando uma personagem se vê entre o limite da vida e da morte, às vezes animais ou humanos, que foram abandonados ou vivem situações solitárias, buscando um sentido para sua existência, vê-se claramente o perfil e o estilo do autor, também com raízes nessa mesma origem. A exemplo da vida de Andersen seus personagens são discriminados, tendo uma vivência de confronto entre os limites da existência humana. B. Bettelheim e M. Klein, dois de alguns dos mais conhecidos estudiosos da psicanálise, já analisaram este e tantos outros contos, sobre a ótica da psicanálise. Chegaram até a considerá-lo como um não-conto, porque foge à tradicional estrutura do conto, o final feliz. As análises, sob a ótica dessas e de outras tantas linhas de pensamento humano, não são o objeto de minha reflexão. O que gostaria de partilhar é o possível final feliz, de conto de fadas mesmo, que poderíamos dar a essas crianças.

Mesmo sabendo que meu comentário agora se torna utópico, quase infantil pra ser sincero, sonho de verdade, sem escrúpulos, em ler nos mais variados veículos de comunicação, um dia após o ano novo, histórias com o final que faltou a Andersen: Menina de 8 anos, após grande período de abandono, encontra os pais na noite de ano novo; Menina que jogava malabares no semáforo agora vive com a família, estuda e brinca com amigas; Meninas que eram prostituídas, agora são protegidas pela lei e pelos pais, e criminosos estão cumprindo pena… Ilusão???

Depois de anos ensinando valores aos alunos, orientando, debatendo e questionando, vejo que ainda há muito a ser feito. Sei que há muitos outros colegas de profissão que, assim como eu, e alguns ainda mais intensivamente, travam uma verdadeira batalha, ainda que seja intelectual, na tentativa de tecer uma infância melhor àqueles que nada têm. Fazemos tanto, mas não o bastante para dar conta da eliminação do problema. Sabemos ainda que se houver a desistência de alguns, diante das dificuldades de se perceber resultados satisfatórios, o problema tomará proporções ainda mais assustadoras. Dessa forma, restam-nos poucas saídas, entre elas, continuar sonhando com lindos finais de contos de fadas para aqueles que possuem suas infâncias perdidas. Continuaremos a sonhar que um dia a vida possa ter para essas crianças um final tão maravilhoso quanto os finais dos contos. Sei que não é o bastante, afinal, ninguém conseguiria viver "feliz para sempre", mas diante de tanto sofrimento enfrentado por seres que nada, ou que pouco, possuem para se defender, a vontade é de mudar, mudar rapidamente, mudar magicamente.

E se o que fazemos ainda é pouco para melhorar a vida das meninas e dos meninos vendedores ou não, esparramados pelos milhares de quilômetros de calçadas Brasil afora, alegremo-nos com a retirada de pelo menos aquele que está na esquina mais próxima, ali bem perto. E se na noite de natal e de ano novo, pelo menos um deles participar da cena como protagonista e não como expectador, tudo já terá sido de grande valor. Contrarie o destino das inúmeras Pequenas vendedoras de fósforos.