Lula fora, José Dirceu no comando, com pose de presidente. O vice-presidente José Alencar sumido nas brumas do nepotismo, não conta. Pior que isso, é bombardeado pelas denúncias de que teria, com seu jeitinho mineiro, usurpado vaga de médico que passou em concurso para favorecer parente de amigo. De cada ministério em ebulição pelo troca-troca da reforma, saltam juras de que “agora a coisa vai”. Vai começar, enfim – garantem em todos os quadrantes – a fase de progresso, de trabalho e, enfim, do desenvolvimento prometido. Estamos, de novo, na ante-sala do paraíso.

Nesta nova fase do governo, tudo vai ser diferente. O ministro do Trabalho sainte, Jaques Wagner, pouco fez, mas concorda com seu sucessor Ricardo Berzoini que não será difícil derrubar a taxa do desemprego para baixo da linha de um só dígito. Nem que seja 9,99%, já vale a meta, para quem passou dos 12% na média da desocupação nacional prometendo dez milhões de novos empregos em quatro anos. Como conseguir? É mole: É só mapear as regiões e setores econômicos de acordo com o potencial de geração de empregos. A partir daí, os bancos oficiais serão acionados para conceder financiamentos que estimulem vocações específicas de cada localidade selecionada… indústria moveleira, calçadista e construção civil na dianteira.

Mas, tomem nota e fiquem atentos: o combate ao desemprego não é coisa exclusiva do governo, nem pode depender da política de juros implementada pelo Banco Central. O governo é apenas um “articulador” desse processo de crescimento sustentável. A taxa de juros real, essa praticada no balcão, nada ou pouco tem a ver com a taxa Selic. Portanto… o espetáculo do crescimento é matéria em que devem se empenhar todos os atores e espectadores. Mais estes que aqueles. Lá no Conselho de Desenvolvimento Econômico, até ontem ocupado pelo hoje ministro da Educação, Tarso Genro, Jaques Wagner concorda. “O foco do meu trabalho será o crescimento econômico e a geração de emprego”, repete em coro.

Juras à parte, que fim levaram as reformas trabalhista e sindical – base para a modernização de nossa economia? Berzoini garante que ambas são igualmente importantes e deveriam caminhar juntas. Mas, já que a primeira é mais polêmica, vai se ocupar só da segunda neste ano eleitoral, onde o espetáculo que conta é o crescimento do PT. A outra, fica para depois. Em compensação, na Educação, Tarso Genro fala numa Constituinte para moldar a reforma universitária que até aqui sequer pontificava nas metas de governo. Com uma ponta de orgulho e outra de despeito, Cristovam Buarque, agora re-senador da República, não perde a verve: “Se a gente reformou a Constituição para tirar direitos de velhinhos e aposentados, pode também reformar para dar direitos a criancinhas sem escola”.

Outra vez, cuidado: ministérios ficam, ministros saem. “Ministério é uma coisa de disputa de poder, de conseguir influir nos núcleos centrais”, aí entendidos os caminhos que levam ao todo-poderoso ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu. Nada pessoal, mas o “acomodamento da Casa Civil”, evitando confronto com prefeitos e governadores, não condiz com um governo reformista, transformador e revolucionário. Este “tem que ter coragem de incomodar”. As farpas de Buarque atingem também o companheiro Lula, que “fala bem e bastante da economia e, do social, pouco”. Esperemos para ver o que diz o superministro Patrus Ananias.

Entre os que entram e que saem ou apenas trocam de gavetas, Brasília vive esse clima de nova fase. Ou recomeço, quase no mesmo estilo de um ano atrás, após a posse. Discursos e prioridades são redefinidas ao sabor do estilo de cada um, que sobe e desce sob a coordenação da Casa Civil, cuja meta maior – dizem – é controlar 80% do Congresso Nacional usando partidos terceiros, como o PMDB, para garantir vida longa ao governo do operário que virou presidente. Um perigo para a democracia, advertem, em vão, experimentados políticos…