Aberto o jogo da sucessão na Câmara Federal e no Senado, o constrito contribuinte pode vir a ter novidades à conta de articulações que, diretamente, não lhe interessam. Tanto pode acontecer um salário mínimo de valor maior que o anunciado, quanto pode haver correção nas tabelas do Imposto de Renda, para não falar em outras coisas menores que, se desagradam o Executivo das “medidas duras”, são esperadas pela cidadania preterida em suas esperanças, sempre adiadas. É o que anuncia a crônica brasiliense, ao traduzir as preocupações do presidente Lula pouco antes de embarcar para longa e ruidosa viagem a terras chinesas. “Se eu tivesse a opinião de que poderia aumentar mais (o valor do mínimo), por que eu não anunciaria? Eu não boto fogo em nota de R$ 100”, disse ele, antes de viajar, advertindo, pela enésima vez, que nas alturas da cadeira que ocupa não acontecem mágicas.

Depende. Pensam o contrário alguns protagonistas da luta por fatias mais gordas de poder, que não dispensam sacrifícios nem artifícios. A vingança de quem perde hoje pode estar escondida atrás do biombo da insatisfação popular, mola de arranque das sempre dissimuladas articulações de bastidores. A preocupação de Lula tem a ver com a derrocada das pretensões de dois importantes aliados seus – o presidente do Senado, José Sarney, e o presidente da Câmara, João Paulo Cunha. Ante o corpo mole do Planalto, que não perdoam, os dois perderam a queda-de-braço na proposta que lhes conferia oportunidade de mais um mandato. Sarney, derrotado, fez como a raposa da fábula ao olhar as uvas (“estão verdes!”) e teria pronunciado uma frase lapidar, de raro ensinamento: “Não tenho saúde para sentir ódio”. A vingança – dizem os gurmês da política – é um prato que se come frio. Esperemos para ver o que acontece até a escolha dos novos regentes da orquestra parlamentar.

Essa nova crise do Planalto é tão artificial quanto aquela provocada pela matéria sobre copos, garrafas e sobre as preferências etílicas presidenciais. Mas serve para mostrar que tudo continua como d?antes, ou ainda pior, na “ilha da fantasia” chamada Brasília. Trouxe de volta à tribuna (quem diria!) até o senador Antônio Carlos Magalhães, para denunciar que “o jogo de vender cargos não pode continuar neste País” das dolorosas diferenças sociais. Continua, sim, e a moeda de troca é sempre a mesma. Coisa que envolve parte importante do PMDB entranhada em ministérios e outros cargos de importantes empresas públicas. E depois há quem se escandalize com a venda superfaturada de derivados de sangue pelos vampiros da Saúde Pública!

As admoestações de Lula antes de partir teriam efeito apenas simbólico. Como simbólicas também foram as avaliações que fez sobre os primeiros 500 dias de seu governo, período em que se descobriu impossibilitado do cumprimento das suas mais importantes promessas. Mas de olho nas próximas eleições, já há quem prometa outra vez o que, prometido antes, não foi nem será realizado. O próprio Lula promete, mas de forma diferente. Diz estar cheio de coragem para fazer a coisa certa e avisa que não abrirá mão de sua messiânica missão de mudar o Brasil.

Como? Já não fala no tempo das vacas magras que – um dia disse – teriam já ficado para trás. Nem evoca o espetáculo do crescimento, que não começou por culpa… de seus antecessores. Vai à China em busca de oportunidades para aumentar nossas exportações e, com isso, realizar o milagre da multiplicação de empregos. Por enquanto, sua obra-prima é esta: respeitar o Orçamento da nação. Isto é, não permitir que se gaste mais do que o País pode gastar. Como fazem as donas de casa, diria. Das medidas duras tomadas com muita dificuldade (Deus é testemunha!) como essa do pífio salário mínimo, é que surgirão efeitos desejados. Amém, acreditemos também na outra “revolução” anunciada, agora na área da saúde e suas “carências históricas”.

Assim dito e repisado, que não se arrisquem os articuladores do Congresso a mexer no salário mínimo nem nas tabelas do Imposto de Renda. Que se resignem os aposentados. A cada real empenhado precisa ter, primeiro, outro arrecadado. Pão e água, esta é a lei e a norma na longa ante-sala do paraíso.