“As pessoas podem ser loucas; o Estado, não”. A frase, que soa como se fosse um aforismo antigo, provado e comprovado pelo magistério inflexível da história, foi pronunciada há pouco pelo presidente Luiz Inácio, durante uma entrevista. Não obstante, ela encerra apenas – temos que admiti-lo sem relutância – meia verdade. Talvez nem isso.
Estou convencido de que, no formular o pensamento, Lula tinha em mente o Estado impessoal, abstrato, transcendente. Mas, se o Estado pode ser encarado assim, nem por isso ele deixa de ser algo mais. Algo diferente. Pode ser também, na contramão dos três adjetivos retromencionados, e sua antítese cristalina – pessoal, concreto, imanente.
Como ensinam os compêndios de ciência política, Estado é a nação politicamente organizada. Ele pode ser definido também como o conjunto dos três poderes – independentes entre si – que compõem a estrutura do poder político: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário.
A grande verdade é que o Estado e os poderes que o definem – e integram – não são de modo algum abstrações, simulacros formais, construções teoréticas do intelecto em disponibilidade. Não. Todos são compostos para essa matéria-prima admirável que é o homem. Ou melhor: que são os homens, feitos não apenas de argila primordial – carne, sangue e ossos -, mas também de sensações, sentimentos, emoções, sonhos, esperanças e vontade.
Como assinala com agudeza e propriedade Ortega y Gasset, “o Estado pode ser, como realmente é, artefato e máquina. Mas é máquina e artefato peculiar: suas engrenagens não são metálicas, mas humanas”. E, como é evidente, essas humaníssimas engrenagens são perfeitamente susceptíveis de enlouquecer – e não raro enlouquecem.
Para comprovar a pertinência dessa assertiva basta passear os olhos, a vôo de pássaro, pelos anais fidedignos da história. Lá se encontram registrados com rigor e documentados ad nauseam, os exemplos comprobatórios da loucura que vitimou diversos estadistas – de Gêngis Khan a Hitler e Stalin.
Sim, a insônia do Estado, mercê, e através dos homens que lhe dão concretude, não é tão rara como se pensa.
Mas atenção: há loucura e loucura. Esta pode até ser de um tipo sui generis, a chamada loucura sagrada. É a que acomete heróis e santos, bem como os criadores, construtores e inventores, no campo das ciências, das artes e das letras. Nesses casos, trata-se de uma insanidade que é mais um excesso de emoção, sentimento e vontade, um transbordamento irreprimível da racionalidade que parece tangenciar – quando não “secantiza” o círculo da normalidade pensante dos cidadãos comuns.
É essa forma de loucura que levou Pessoa a perguntar, num dos poemas da Mensagem: “Sem a loucura, que é o homem/mais do que a besta sadia,/cadáver adiado que procria?”
Pode haver ainda outra forma de loucura: a premeditada, fingida, para atingir certos e determinados fins, escusos ou meritórios. É o caso da “loucura” de Hamlet, objeto destas palavras certeiras que Shakespeare coloca na boca de Polônio: “Ainda que seja loucura, há método nela”. Embora, do mesmo modo que o sol, a loucura tenha uma órbita definida (a asserção, mais uma vez, é do Bardo de Stratford-on-Avon), ela tanto pode ser longa como breve. Se bem que, como diz Schiller, a loucura é breve e longo o arrependimento. Mas não é este, como sustenta Cervantes, o melhor dos remédios para os males da alma?
Opõem-se naturalmente a loucura e a racionalidade. Não obstante, esse amante de paradoxos que se chama Chesterton, pondera cum grano salis: “Não é louco o homem que perdeu a razão. É louco aquele que perdeu tudo, tudo, menos a razão”.
Concluindo, temos que admitir: não são apenas as pessoas que podem ser acometidas pela insânia, sob as mais diversas formas. Os próprios estados, que em última análise são constituídos por homens, não são imunes a ela. Com este agravante: a insanidade estatal é infinitamente mais perigosa, mais grave – e mais cara. Afinal, ela pode afetar todos os cidadãos de uma república – ou todos os súditos de um reino.
Evitemo-la, pois. Por todos os meios possíveis. Através de todas as formas viáveis. Nunc et semper.
João Manuel Simões
, da Academia Paranaense de Letras.

