A cruz e a caldeirinha

Se de esquerda, socialista de modelo não especificado, o governo Lula pode levar o Brasil a ficar entre a cruz e a caldeirinha. Pelo visto e vivido até o momento, seu esquerdismo é fajuto, nada ortodoxo. Seu governo se diferencia, aqui e ali, dos conservadores, e até mesmo de direita, que por toda a história dominaram o Brasil. A popularização é um avanço na atual administração petista, embora distante dos discursos de campanha e muito mais ainda dos cânones das esquerdas que existiam e algumas ainda insistem e persistem no planeta.

O risco de ficarmos numa sinuca de bico é resultado da justificada independência que procuramos com relação ao domínio político, militar e econômico dos Estados Unidos, bastante parecido com um abominável imperialismo. Esta independência pode jogar-nos nos braços da nova esquerda latino-americana, hoje liderada por Hugo Chávez, presidente da Venezuela. Ao povo brasileiro não interessa nem a submissão aos interesses dos Estados Unidos de Bush nem a ditadura bolivariana de Hugo Chávez, que vem ganhando adeptos na América do Sul, alargando as fronteiras do novo bloco ideológico com a inclusão total da Bolívia e parcial do Equador e da Argentina.

O grotesco Chávez tem bala na agulha, a começar pelo petróleo, atrativo que a todos interessa e aparece como competidor dos nossos sonhos de grande produtor de biocombustíveis. E de liderança no terceiro mundo, do qual os países latino-americanos, sem exceção, fazem parte.

Assusta pensar que Lula possa sonhar com um terceiro mandato. Ele tem dito que não, mas já há quem afirme que admite o talvez. O exemplo venezuelano está aí, a mostrar-nos que podemos ser empurrados para a caldeirinha, pois Chávez prepara sua eternização no poder. Através de métodos ditatoriais, transformou o Congresso daquele país vizinho em fantoche e avançou contra a imprensa. Claro, contra a imprensa de oposição. Agora, acaba de levar a Assembléia Nacional da Venezuela, marionete do seu governo, a aprovar um artigo constitucional ampliando o seu mandato de seis para sete anos e permitindo reeleições consecutivas, sem limites.

Um mau exemplo para o Brasil, hoje praticamente isolado no Mercosul e com seu presidente já sem condições de disputar a liderança do bloco com Hugo Chávez. Como gato escaldado tem medo de água fria, é bom irmos desde já nos precavendo, reforçando nossas instituições democráticas, o que não se faz por medidas provisórias, com escândalos e discursos e programas populistas capazes de arrastar as massas votantes. Esta é uma excelente ocasião para as esquerdas ideológicas brasileiras lembrarem o que disse em julho passado o prêmio Nobel de Literatura (1988) José Saramago, um comunista de pensamento, talento e responsabilidade. Ele disse na capital boliviana que se deve estar alerta para uma ?tentação autoritária? observada em setores de esquerda que chegaram ao poder na América Latina. Para o escritor português, a esquerda ?sofre uma espécie de tentação maligna que é a fragmentação? e mostrou ter reservas com relação ao ressurgimento de governos dessa tendência na América Latina. ?Há uma tendência autoritária em muitos países. Nada restou dos ideais?, afirmou.

Ele também advertiu para o ressurgimento do fascismo no Velho Continente e criticou os movimentos armados antigovernamentais na Colômbia, dominados pelo tráfico de entorpecentes e lideranças esquerdistas.

No final da histórica entrevista, disse Saramago: ?Não vejo nada mais estúpido do que a esquerda. Uns enfrentam os outros, por grupos, por partidos, por opções?. É bom ouvir as advertências do prêmio Nobel. Elas ganham ainda mais credibilidade por serem de um marxista, como pretende sê-lo Hugo Chávez e tantos outros atuais líderes latino-americanos. Com uma diferença: Saramago é um homem inteligente e conseqüente.

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