Wilson Simonal foi um dos maiores artistas que o Brasil conheceu. Em um período de aproximadamente sete anos (a partir de 1965, e até o final de 1971, início de 1972), não só ele foi o cantor de maior sucesso – dividindo a popularidade com Roberto Carlos – como foi estrela de TV, showman e até artista de cinema.

Foi um entertainer único, que só tem paralelo no norte-americano Sammy Davis, Jr., que tinha talento semelhante. Seu grande momento foi “reger’ 15 mil pessoas, no ginásio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, com a música Meu Limão, Meu Limoeiro, quando apenas era a atração de abertura para o show de Sérgio Mendes.

Na história da música popular brasileira, entretanto, Simonal ocupa um pé da página. Tudo por conta de uma estranha história que envolvia o cantor, seus assessores, um contador e agentes da Delegacia de Ordem Pública e Social (DOPS), a temível polícia política do regime militar.

Por conta de um suposto desfalque em suas contas, Simonal ameaçou o contador Raphael Viviani, e acabou pedindo para alguns agentes do DOPS “darem uma lição” no cidadão. Acusado, Simonal não negou a relação com os policiais, e acabou tomado como informante do regime.

Sofreu uma terrível perseguição de seus colegas e da imprensa mais ligada à esquerda, com a liderança do jornal carioca “O Pasquim”. Era preterido em boates, desprezado pelas gravadoras e recusado nas emissoras de TV.

Teve a carreira ceifada no auge, e sequer teve a oportunidade de recomeçar. Passou os últimos anos da vida tentando mostrar que não era o dedo-duro que a mídia dissera.

Só conseguiu descansar quando o presidente Fernando Henrique Cardoso assinou um documento garantindo que Wilson Simonal de Castro “nunca colaborou para os órgãos de segurança durante o período de regime militar”.

Hoje, a qualidade artística de Simonal é resgatada por livros e filmes e pela reedição de seus álbuns – trabalho de muitos, mas que tem a marca dos filhos do cantor, Wilson Simoninha e Max de Castro.

As gerações mais novas podem agora conhecer o estilo único de um artista que era, como apontou Ruy Castro em seu livro “Chega de Saudade”, “apenas o máximo para seu tempo: grande voz, um senso de divisão igual ao dos melhores cantores americanos e uma capacidade de fazer gato e sapato do ritmo, sem se afastar da melodia ou sem apelar para os scats fáceis que eram a especialidade de Leny Andrade. (O compositor e jornalista Ronaldo) Bôscoli, que o atraíra para fora da influência de Carlos Imperial (produtor e compositor), passou a municiá-lo com material original, como Telefone (com Menescal). (…) Mas Simonal era perfeito também para coisas jazzísticas como Nanã, de Moacyr Santos, depois que Mário Telles lhe aplicou a letra definitiva; foi o lançador da Bossa Nova temporã de Tito Madi, em Balanço Zona Sul, e de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, em Garota Moderna; e tornou-se o melhor intérprete de Jorge Ben até País Tropical. Naquela fase ele era capaz de encaixar as bossas mais surpreendentes num tema e torná-lo irresistível”.

Mas o mesmo Ruy Castro que elogia Simonal não demora algumas linhas para desancá-lo por dois motivos: a famosa história do DOPS e um preconceito musical. Leia: “Quando só as bossas passaram a ser importantes em seu estilo, Simonal ficou repetitivo e voltou à esfera de Carlos Imperial. Em 1966, já estava cantando “mamãe passou açúcar ni mim”.

Em 1971, ele regeu – com um dedo só – 15 mil pessoas no Maracanãzinho ao som de uma xaroposa apropriação de Imperial, Meu Limão, Meu Limoeiro. Poucos meses depois, encalacrou-se numa obscura história que o envolvia como informante dos órgãos de segurança do governo Médici no meio artístico, e isto destruiu sua carreira. Para usar o jargão que ele criou nos seus dias de glória, Simonal deixou cair e se machucou”.

Antes de citar os problemas extramusicais de Wilson Simonal, Ruy Castro reclama da ascendência de Carlos Imperial – o homem que “descobriu’ Roberto Carlos. Simonal se aproximou dele no momento em que o produtor e compositor começava a criar sua persona de malandro que lhe deu ,fama no cinema e na televisão. E, atraído para este mundo de carros, mulheres e bebida, Simonal antecipou seu mestre e virou o grande malandro brasileiro.

E o estilo foi transformado em música – ou, melhor, o estilo de vida virou estilo musical, com o pejorativo apelido de “pilantragem”. Por mais grosseiro que seja o nome, ele resume bem como é a união entre letra e música: de um lado, versos bem-humorados e ousados para a época, valorizando a riqueza e a vida mundana; de outro, notas bem resolvidas e brilhantemente arranjadas, ou por Cesar Camargo Mariano, ou por Erlon Chaves. Cesar, inclusive, é peça-chave nesta engrenagem. Ele liderava o Som Três, banda de apoio de Simonal, e foi o responsável pela consolidação do gênero, e pela consagração do cantor.

Quando você escuta uma canção do período, rapidamente reconhece a voz de Simonal e a “pilantragem” musical. Temas como Carango (“Garota minissaia / essa onda é bem / e todo mundo no carango / não sobrou ninguém / ninguém sabe o duro que dei / pra ter fonfon / trabalhei, trabalhei…”) e Nem Vem Que Não Tem (“Nem vem que não tem / nem vem de garfo / que hoje é dia de sopa / esquenta o ferro / passa a minha roupa / eu nesse embalo vou botar pra quebrar…”) são simbólicos, e poderiam ter sido o estopim para a criação de uma música pop tipicamente brasileira – unindo rock, samba e Bossa Nova em uma levada dançante.

Era tão envolvente que Simonal e Cesar descobriram que era possível transformar qualquer coisa em pilantragem. Na histórica série Alegria, Alegria, eles revisitaram temas antigos como Está Chegando a Hora, Mamãe Eu Quero e o já citado Meu Limão, Meu Limoeiro.

Vendeu horrores, mas despertou o ódio da crítica – que não aguentava nem a música nem Simonal (o que explica a rejeição de anos posteriores), por conta de seu jeito perdulário e alienado.

Para os “especialistas’, o estilo era bobo, e tirava espaço da Bossa Nova. E até hoje os mesmos, quando perguntados, reclamam da opção do cantor, como ficou evidente no livro “Chega de Saudade”. Quando a pilantragem estava estabilizada, liderando as paradas e dividindo o gosto da juventude com o Tropicalismo, apareceu o contador.

E a desastrada intervenção de Wilson Simonal na história do contador foi fatal para sua carreira. E fez com que a pilantragem fosse interrompida e proscrita da Música Popular Brasileira. Hoje, ela surge apenas como mero relicário da carreira de um grande artista – quando poderia ser a essência do nosso pop.