O inglês William Blake, embora gênio, era estranho. Ainda hoje. Imaginem em sua época.

Como boa parte dos gênios, incompreendido. Teve múltiplos talentos – poeta, pintor, gravador, tipógrafo – reconhecidos cem anos depois de sua morte por conta de William Butler Yeats e André Gide.

O primeiro, poeta irlandês; o segundo, romancista francês. Os dois, também estranhos.

Ainda assim, hoje, embora ninguém conteste que foi um dos nomes de ponta das artes, muitos batem na trave com suas obras, especialmente no terreno literário, porque as visuais deslumbram mas não dão nó no cérebro.

Algumas obras literárias de Blake mesmo belas, tem significados ocultos e enredo de labirinto.

Saiu uma delas, há duas semanas. A editora Hedra, de São Paulo, empenhada em editar títulos notáveis, embora alguns meio estranhos de sujeitos estranhos, está publicando Jerusalém, obra capital de Blake.

É o tipo de livro que para ser digerido só com azeite do lado. No começo do livro temos o tal azeite, um estudo de David Whitmarsh-Knight – apenas 32 páginas, uma mixaria se considerar que o original completo tem 612 e analisa a obra linha por linha.

E mesmo depois de ler o nada palatável roteiro, com tudo aquilo na cabeça, ainda não é fácil digerir – embora se o sujeito quiser apenas surfar sobre o texto lírico, vigoroso e surpreendente, ignorando seus significados, não vai se arrepender.

Bem. Antes de ir adiante com Jerusalém, falemos um pouco de Blake, já que como muitos outros sua obra é produto de suas ideias e de sua vida. Comecemos por um aspecto curioso: Blake era um visionário. Não é metáfora.

Ele tinha visões mesmo. Pelo menos era o que dizia. A primeira foi com apenas nove anos e sem tomar ou fumar nada – no seco, mesmo. Ele estava lá olhando e viu anjos pendurando lantejoulas nos galhos de uma árvores. Alguns anos mais tarde viu outros anjos caminhando entre um grupo de trabalhadores que, naturalmente, não viam nada daquilo.

O certo é que esta anjarada aparecendo aqui e ali, mais leituras da bíblia desde criança, contribuíram para Blake desenvolver uma religiosidade peculiar e para que ele se tornasse um grande poeta e gravador, cuja inspiração vinha principalmente das visões e da Bíblia.

As gravuras entraram na vida de Blake -elas são parte essenciais de Jerusalém – muito cedo. Aos dez o poeta ilustrava poesias com desenhos próprios e cópias de desenhos de antiguidades gregas. Aos quinze – dia 4 de agosto de 1772 – virou aprendiz por seis anos do renomado estampador James Basire. Ao final do período, com vinte e um, Blake era bamba no assunto.

O estilo literário na juventude de Blake era conformista e reverente às convenções sociais. Não seria por muito tempo. Aquele era um período marcante de iluminismo e revolução industrial.

Blake flertava com o romantismo e tinha olhos abertos para a realidade, sensível à pobreza, injustiça social e o lado sombrio do estado e da igreja. Nos poemas de Songs of Innocence and of Experience (Canções da Inocência e da Experiência), aponta a igreja inglesa e a nobreza como exploradoras dos pobres.

Inicialmente publicados em separado cada um destes livros revela um dos dois estados da alma – o espiritual e o material. No primeiro, Canções da Inocência, de 1789, surgem os primeiros traços de misticismo.

No segundo, publicado cinco anos depois, ele mete o dedo no caráter maligno da sociedade. Falar assim parece fácil. Mas Blake complicava as coisas. Ele refuga o autoritarismo e contesta a legitimidade das religiões naturais.

Para ele, todas as religiões, no fundo, eram uma só -teoria que nenhuma grande religião assina embaixo. Em 1790, Blake publica seu livro mais conhecido: O Casamento do Céu e do Inferno.

O poeta nega a matéria, não acredita em punição eterna e investe contra a autoridade. A abordagem destes temas poucos populares e de difícil aceitação fez de Blake um excêntrico na literatura, embora nas artes visuais fosse admirado.

Blake escreveu e ilustrou mais de vinte livros. Em seu por,tfólio constam do O Livro de Jó à Divina Comédia de Dante, além de escritores ingleses de expressão.

Mas a sua estranheza impediu que tivesse fama significativa e o poeta viveu bem perto da pobreza, trabalhando até os últimos dias.

No dia da morte, por exemplo, fazia ilustração para o livro de Dante. Seu funeral foi simples e pago pelo sujeito que encomendou o trabalho.

Embora pobre, morreu sem deixar dívidas. A Igreja Gnóstica Católica elevou-o a categoria de santo e ele virou nome de prêmio para arte sacra na Austrália.

Místico

Agora voltemos a Jerusalém. Há quem veja no livro uma crítica à sociedade industrial nascente, há quem veja defesa da fraternidade entre homens como única forma de superar os problemas do mundo, individuais e coletivos.

Há também que veja mensagem de Blake, segundo a qual a arte é a única forma de salvação do homem – o artista mais que religiosos estaria identificado com o profeta, no caso Jesus.

Dito assim parece fácil. Whitmarsh-Knight explica que as obras de Blake são visuais, mesmo escritas. E neste caso é fundamental ter compreensão visual da proposição para depois entender o roteiro – o percurso da borda da circunferência para o centro e depois
o inverso.

Na cosmologia de Blake, Albion é um dos imortais ou eternos – nome também utilizado para representar a Inglaterra e seus habitantes, razão esta que leva ao entendimento de que ao falar de Jerusalém, Blake estaria na realidade falando de seu país.

Num outro aspecto, a escolha de Jerusalém como tema do épico místico se enquadraria na tradição da cabala (uma de suas vertentes), para a qual Jerusalém seria o centro do universo – alguns admitem a cidade como porta para outra dimensão. Daí o fascínio místico ou religioso que a cidade exerce sobre grande parte da humanidade – judeus, cristãos e muçulmanos.

No livro, existem quatro mundos, cada capítulo representando um deles. Dois mundos são finitos e dois infinitos. Dois masculinos e dois femininos. A arrogância e queda de Albion afetam as quatro dimensões de modo que cada uma precisa se purificar com sua própria natureza.

Os dois mundos masculinos são Ulro, finito e Éden, infinito. Os mundos femininos são Geração, finito, e Beulá, infinito. Cada capítulo tem trama única e trata de vários acontecimentos de acordo com autolatria de Albion.

A trama do mundo singular presente em cada capítulo começa quando Albion, na circunferência, afasta-se de Deus para cair ‘para dentro’. Todos os capítulos avançam rumo à compreensão no centro e, então, com o vórtice invertido por Deus, todos os capítulos terminam com Albion de volta à circunferência. Quando os quatro mundos são purificados, o Cristo glorificado e ressuscitado redesperta Albion para a reciprocidade infinita no seio de Cristo.

Jerusalém substitui As Quatro Zoas. A palavra zoa criada por Blake deriva do vocábulo grego que significa animal. As quatro zoas são os quatro aspectos da energia divina.

O livro descreve nas quatro primeiras partes exatamente a queda destes aspectos – o poder de conceder vida ao ser criado, a capacidade de amar e de gozar, o princípio eterno da sabedoria e da forma e a imaginação e fertilidade.

Em Jerusalém, através de mitos, Blake constrói sua visão da criação do homem. É preciso gostar de literatura sem preconceito religioso para ir adiante e perceber que se trata bem mais que literatura e mais apaixonante que muitas religiões.