A grande vantagem de entrevistar Fernando Meirelles é que ele fala tudo, na lata. Não faz como a maioria dos cineastas, e atores e atrizes, que adoram desfilar lugares-comuns, eufemismos e clichês politicamente corretos. Meirelles, não. Diz o que pensa.
Por exemplo, quando seu O Jardineiro Fiel foi indicado para concorrer no Festival de Veneza, a AE lhe perguntou quais eram as chances. A resposta: nenhuma. Aquele era filme para mercado, não para festival. Nem quando a crítica italiana o colocou nos cornos da Lua, ele se abalou: "Não vai dar em nada", insistiu. E não deu mesmo.
Depois, quando foram se aproximando outras premiações – o Globo de Ouro, o Bafta (o prêmio do cinema inglês) e finalmente o maior de todos, o Oscar, lhe perguntaram se uma eventual vitória de O Jardineiro Fiel seria uma vitória do Brasil. "Não", ele disse. O filme é uma produção internacional, que conta com técnicos brasileiros (a começar por ele próprio), mas falado em língua inglesa, baseado em romance inglês (de John Le Carré) e interpretado por elenco predominantemente inglês. Portanto, nada de patriotada, esse perigo recorrente no Brasil, em especial em ano de Copa do Mundo.
Vamos lá: O Jardineiro Fiel está indicado em quatro categorias: atriz coadjuvante (Rachel Weisz), montagem (Claire Simpson), roteiro adaptado (Jeffrey Caine) e trilha sonora (Alberto Iglesias). Rachel Weisz é uma atriz britânica, e antes desse ótimo papel era conhecida por sua participação em O Retorno da Múmia. Claire Simpson é uma montadora americana de largo currículo. Já tem um Oscar na estante pela edição de Platoon, o filme sobre o Vietnã de Oliver Stone. Jeffrey Caine é um roteirista cujo trabalho anterior mais famoso é o texto de Goldeneye, a aventura de 007 vivida por Pierce Brosnan. E Alberto Iglesias é o compositor de músicas dos filmes de Bigas Luna e Pedro Almodóvar. Muito bom, aliás. Quer dizer, nenhum deles é brasileiro ou tem qualquer coisa a ver com o Brasil.
No entanto, procure notícias sobre o filme em qualquer lugar e ele será sempre identificado como um "Le Carré dirigido por um brasileiro". Foi assim na Itália, e assim foram os títulos das críticas do New York Times quando o filme estreou nos Estados Unidos. Isso para dizer que Meirelles não se comportou como um "diretor contratado" no sentido mais burocrático do termo – quer dizer, aquele ótimo artesão que vai lá e faz seu trabalho com muita competência mas não faz questão de botar a assinatura nele
Nada disso. Há um estilo em O Jardineiro Fiel e, se você prestar atenção, reconhecerá nele o autor de Cidade de Deus. Mesmo porque o diretor de fotografia dos dois filmes é o mesmo, Cezar Charlone, que é sócio de Meirelles. Aliás, em suas entrevistas, Meirelles faz questão de dizer que deve tudo da concepção visual de O Jardineiro a Charlone. De qualquer forma, é o diretor que escolhe o que afinal vai para a tela – pelo menos quando ele tem a última palavra sobre o produto. E, dessa forma, Meirelles conseguiu, ainda que discretamente, colocar uma impressão digital brasileira neste filme inteiramente internacional.


