Nos seus tempos de crítico, Peter Bogdanovich criou uma frase de efeito que ficou famosa. Disse, falando da Hollywood dos anos dourados, que todos os bons filmes já haviam sido feitos. Depois, por volta de 1970, Bogdanovich desmentiu a própria afirmação e fez filmes como Na Mira da Morte e A Última Sessão de Cinema. Muita gente ainda diz que não se fazem filmes como antigamente, mas não é verdade. Tudo mudou. A arte, a forma de contar histórias, a técnica. A própria seleção do Festival de Cannes de 2013 já mostrou filmes muito bons, como dois que vieram da Ásia – o chinês A Touch of Sin, Um Toque de Pecado, de Jia Zhang-ke, e o japonês Tal Pai, Tal Filho, de Hirokazu Kore-eda.

Mas ontem (20), deu para vacilar um momento. Cannes Classics exibiu as versões restauradas de dois clássicos. O primeiro foi Violência e Paixão, de Luchino Visconti, de 1974, seguido por Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais, de 1959. Claudia Cardinale veio apresentar o filme de Visconti e falou dele com carinho. “Foi meu mestre, me ensinou tudo.” O filme mostra um velho professor que vive isolado, cercado de obras de arte. E irrompem em sua vida uma burguesa, com o amante, e também sua filha e o namorado. Cria-se um simulacro de família – uma família incestuosa, como diz o namorado da filha.

Numa cena, o professor acorda e, atraído pelo barulho, vai ao quarto onde está o gigolô. Estão os três – a filha, o namorado e ele – numa orgia de sexo, ao som de Roberto Carlos. La Mia Solitunide Sei Tu.

François Truffaut dizia que a idade cai bem nas obras que o tempo respeita. Violência e Paixão continua belo e forte, um grande Visconti. Dá um testemunho poderoso da rearticulação fascista na Itália, nos anos 1970. E o elenco – Burt Lancaster, Silvana Mangano, Helmut Berger – é genial. Claudia Cardinale e Dominique Sanda fazem pequenos papéis. Por meio de Dominique Visconti evoca sua mãe, Carla Erba.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.