Uns seis anos atrás, Ricardo Becker ganhou de presente um bonsai cipreste. Levou para a casa de amigos em Búzios, e acabou por esquecê-lo lá. A planta, de 30 centímetros, ficou à mercê do vento da praia de Geribá, tomando uma forma interessante, os galhos todos voltados para a esquerda. Ao reencontrá-la, tempos depois, o artista plástico carioca ficou encantado: a arvorezinha, seca, morta havia muito, tinha se tornado uma escultura. Resolveu trazê-la para sua casa, no Humaitá, e acomodá-la num nicho na cozinha.

A visão diária serviria de estalo para a exposição “Projeto Cisco”, em cartaz até o dia 17 de junho na Casa de Cultura Laura Alvim, na Avenida Vieira Souto, de frente para o mar de Ipanema, no Rio. Na entrada da sala, o vídeo Vento, que acompanha uma quase tempestade de areia numa praia, convida o visitante a entrar em contato com um elemento que Becker torna “visível”: o ar. No mesmo espaço, o girar de um espelho em alta velocidade faz com que se reproduza a sensação de uma queda livre, o rosto à mercê do gravidade.

Na sala principal, Vento Abrigo, um penetrável de paredes formadas por restos de madeira que iriam para o lixo de uma madeireira, dentro do qual foram dispostos dois potentes ventiladores, chama a atenção pelas grandes dimensões. São 10 metros de comprimento que se dobram como uma serpente. É uma espécie de refúgio, mas não é agradável.

“É uma grande baleia que engole as pessoas. É, também, um paradoxo. Você se abriga do vento no vento”, sugere Becker, que fez o passeio pela mostra com a reportagem no início do mês, passados poucos dias da abertura. O vento sempre soprou a seu favor: ele praticou windsurfe, no Rio, em Búzios e em Angra dos Reis, por muitos anos, e é velejador.

Perto dali, galhos secos unidos por uma amarração de aço encontrados no terreno de sua casa formam a escultura Ninho, de 3 metros de altura. Arrancado do vaso original, o bonsai inspirador, que ganhou o nome de Árvore Cisco, está suspenso, como que flutuando, preso apenas por um bastão de vidro transparente. A luz que incide sobre a planta forma uma sombra na parede que potencializa seu efeito.

Foi a obra de maior sucesso na vernissage ? um colecionador a comprou por R$ 10 mil. Becker deve reproduzi-la usando bonsais vivos, mas naturalmente nenhum há de ficar idêntico ao de origem ? vai depender da incidência do vento. “Posso fazer uma tiragem de mil e cada um terá uma forma.”

As obras foram feitas especialmente para a exposição. A curadoria é de Fernando Cocchiarale, para quem o cisco pode ser interpretado como a parte visível do vento. “Nenhum meio icônico usual (pintura, fotografia, cinema, escultura) registra diretamente o vento. Somente seu efeito sobre as coisas é visualizável”, apontou, na apresentação. Dar-lhe alguma materialidade é um desafio dos trabalhos de Becker. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.