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‘Um Toque de Pecado’ tem cenário faroeste

Assim como “Um Estranho no Lago”, de Alain Guiraudie, foi o melhor filme na seleção do Festival do Rio deste ano, o de Jia Zhang-ke foi o melhor da Mostra, mas toda tentativa de atribuir a “Um Toque de Pecado” o prêmio da crítica chocou-se com uma intransigência que só Freud explica. Jia, amigo da Mostra e que aqui esteve (e foi homenageado), tem grandes filmes no currículo – “Plataforma”, “O Mundo”, “Em Busca da Vida” -, mas “Um Toque de Pecado” é especial, mesmo à luz de sua grandeza.

Toda a obra do diretor tem fornecido a crônica das transformações – políticas e sociais – ocorridas na China, no pós-comunismo, mas desta vez Jia se beneficiou de circunstâncias excepcionais. É um fato que a China capitalista exerce um controle rígido da informação, mas, nos últimos anos – e a exemplo do quer ocorreu no mundo árabe, com a primavera do Cairo -, a internet tem contribuído para democratizar a informação.

Em Cannes, em conversa com o repórter, o diretor disse que a grande novidade dos últimos tempos tem sido a erupção de violência em toda a China. Não é que antes não existissem esses surtos, mas as notícias simplesmente não circulavam. Hoje, vão para a internet.

“Encontrei as histórias que recrio no filme na rede. Achei que teria problemas com a censura e, para ser honesto, não filmei exatamente o que enviei à comissão que avaliza os projetos e dá o sinal verde. Mas o que posso dizer é que sinto uma boa vontade antes inexistente. Existem possibilidades de que o filme venha a ser liberado para lançamento nos cinemas.” Isso, sim, será uma verdadeira revolução para Jia, cuja obra é de exportação. Passa nos maiores festivais do mundo (Cannes, Toronto, Veneza) e ele coleciona prêmios, mas na China circula apenas clandestinamente.

Em dezembro, “Um Toque de Pecado” ainda não foi liberado, contradizendo a expectativa do diretor, mas existem informações de que ele é queridinho de um dos homens fortes do regime, que o prefere ao próprio Zhang Yimou, responsável pela cerimônia de abertura da Olimpíada de Beijing (Pequim).

A China de “Um Toque de Pecado” é um cenário de faroeste. “Estamos numa nova encruzilhada”, avalia o cineasta. “Ou o governo realiza mudanças para valer ou as pessoas vão prosseguir tentando resolver seus conflitos pela violência, fazendo justiça por conta própria. E isso não é bom para a vida social.”

“Um Toque de Pecado” conta quatro histórias que, de alguma forma – com sutileza -, dialogam entre si. São histórias de vingança, de justiceiros. Passam-se em cenários como pequenas cidades, usinas e casas de massagens. “Não existe respeito pelas liberdades individuais. Dinheiro e poder geram impunidade”, ele conta.

Aos 43 anos – é jovem, ainda -, Jia Zhang-ke tem usado as novas tecnologias (o digital) como ferramenta para filmagens rápidas e baratas. As equipes reduzidas também facilitam sua vida. Boa parte de sua produção recente tem sido documentária.

“Um Toque de Pecado”, mesmo com o pé encravado na realidade, marca seu retorno à ficção – outro motivo para realçar os excepcionais atributos do filme. A política pode dar o tom, mas Jia é um artista. Sua arma é a estética. Um dos episódios seria o sonho de qualquer exterminador – um funcionário que tenta denunciar a corrupção em sua vila é intimidado com uma surra monumental, mas ele pega em armas e… Poucos diretores hoje, no mundo, filmam tão bem quanto Jia. Violência – e humor. É outra novidade deste (grande) filme que já entrou para a história.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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