A Grande Família, é uma das
poucas exceções de comédias.

A tevê brasileira virou um verdadeiro saco de risadas. Não bastassem os numerosos programas propriamente dedicados ao humor, não faltam quadros e anúncios publicitários que querem fisgar o espectador tentando ser engraçadinhos. Enquanto algumas emissoras conseguem êxito com poucas produções do gênero, como Pânico, da Rede TV!, e Meu Cunhado, do SBT, a Globo, mais do que nunca, centrou a linha de shows em programas baseados no humor. Atualmente, a emissora produz sete humorísticos, fora quadros no Fantástico, como As 50 Leis do Amor e o Álbum de Casamento, e os núcleos cômicos das novelas.

Mas quantidade não é garantia de piada engraçada e são poucas as produções que fazem o espectador rir. Seja para refletir através da piada ou aliviar a tensão vendo um besteirol. Até mesmo a publicidade está mais voltada para criar situações de humor do que vender propriamente o produto. Mas os publicitários não têm conseguido nem uma coisa ou outra. E quando acertam a piada, como a do São Nunca da Ford, pecam pelo excesso. O certo é que raramente um intervalo comercial deixa de ter uma piada infame para importunar quem assiste.

A máxima de que piada boa é piada conhecida tem funcionado. Na Globo, por exemplo, nenhum dos novos programas superou A Grande Família, no ar há três temporadas. A trupe liderada por Marco Nanini e Marieta Severo, embalada pelo excelente texto de Cláudio Paiva, deixa no chinelo os colegas da emissora. Quando se flagra Cláudia Rodrigues contando piadas que rolam soltas na internet em A Diarista fica evidente a falta de roteiristas mais inventivos. Por isso, veteranos como Chico Anysio se saem melhor escrevendo os próprios textos.

Qualquer frase dita pelo personagem Azambuja no Zorra Total é mais interessante que 20 minutos de humor infecundos comandados por Ingrid Guimarães e Heloisa Périssé em Sob Nova Direção. Para as novelas, em que a presença do humor é sempre necessária, fica visível a escalação de atores comprovadamente eficientes para compor os núcleos cômicos. No “remake” de Cabocla, por exemplo, não foi à toa a escalação de Tony Ramos para viver o coronel Boanerges. Em Da Cor do Pecado, a família Sardinha é comandada pela experiente Rosi Campos e os outros dois núcleos entregues ao respeitado Matheus Nachtergaele e a dupla Ney Latorraca e Maitê Proença.

Antigos e bons

O detalhe é que Benedito Ruy Barbosa escreveu Cabocla na década de 70 e ainda hoje as piadas funcionam. É mais ou menos o que ocorre com o eterno Bronco vivido por Ronald Golias em Meu Cunhado. Todos já sabem o que vão ouvir, mas mesmo assim querem conferir a performance de Golias. Neste caso, até mesmo a produção deplorável não tira o brilho do veterano ator.

Aliás, ajustar-se a própria realidade tem sido um dos méritos do Pânico, que faz milagre na Rede TV!. A trupe liderada por Emílio Surita é de longe a mais escrachada da tevê aberta. A ponto de antecipar os vencedores do Troféu Imprensa, eleição dos melhores da tevê realizada pelo SBT, antes de Sílvio Santos. As intervenções desautorizadas do repórter Vesgo e o dublê de Sílvio Santos também são impagáveis em se tratando de detonar celebridades. “Tomara que você fique para sempre na Malhação” é uma das pérolas rogadas pelo repórter Vesgo ao ser destratado por famosos.

Como hiena

Coincidência ou não, o fato é que a tevê está abarrotada de humor em um momento que seria propício discutir ou refletir sobre outras questões, antes de tratar o espectador como hiena. Na semana em que houve o imbróglio entre o correspondente do jornal The New York Times e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Globo Repórter teve como tema as diferenças de personalidade entre homens e mulheres. Com direito aos repórteres fazendo gracinhas na apresentação das matérias, “frias” como o Pólo Norte. E quando o telejornalismo também tenta ser engraçadinho é porque a dose de humor já ultrapassou o limite do bom senso.