“Sinto muito pelo seu País”, escreveu o dramaturgo Will Eno a Amanda Lyra, no último dia 9 de julho. Amanda tinha enviado um e-mail a Eno com algumas dúvidas sobre o texto Tragedy: A Tragedy, que traduzia para poder montar no Brasil.

Antes de respondê-las, ele aproveitou para confortá-la sobre a derrota, por 7 a 1, que o Brasil sofreu da Alemanha na fase das semifinais, na Copa – o que foi o fim do mundo para muitos. E é também sobre fim do mundo que fala Tragédia: Uma Tragédia, peça que estreia nesta quinta-feira, no Espaço Cênico do Sesc Pompeia, com direção de Carolina Mendonça.

Amanda conheceu o texto em 2009, quando morou em Nova York por quatro meses. Enquanto esteve lá, aproveitou para ler peças teatrais e encontrou o trabalho de Eno. “Fiquei muito entusiasmada com o texto”, diz a atriz. “Esta temática de fim do mundo, que é um tabu da humanidade, é interessante de pesquisar. Tem muito a ver com o mistério da morte: o que acontece depois que acaba?”

Quatro jornalistas aparecem no enredo de Tragédia…, fazendo a cobertura de um estranho fenômeno. Ao que parece, o sol se pôs para nunca mais nascer, dando início a uma noite eterna. O texto, no entanto, não deixa claro se a luz de fato não voltará ou se o mundo está vivenciando apenas o mais cotidiano e banal dos eventos: a sucessão de dias e noites.

Do estúdio, o âncora Frank coordena o trabalho dos repórteres, que estão espalhados pela cidade e entram no ar por meio de links ao vivo. Susana, Constance e Michel fazem diferentes tipos de cobertura: enquanto a primeira busca testemunhas que possam falar sobre o acontecimento, a segunda reporta de uma casa vazia, procurando vestígios que possam ajudar a desvendar o mistério. Sempre nas escadarias de prédios oficiais, Michel é quem transmite as palavras das autoridades. Quanto mais o tempo passa, mais frágeis ficam os jornalistas: a linguagem firme começa a vacilar, as emoções surgem e eles se mostram em uma transição da figura profissional para a pessoal, mostrando que, mesmo sempre expostos em cadeia nacional, são, ainda, humanos.

A trama usa o suposto fim do mundo como metáfora para abordar outras questões.

“Falo sobre a morte, o mistério, o desconhecido”, diz Eno em entrevista ao Estado, por e-mail. “Porque temos medo, precisamos ter a sensação de que entendemos e controlamos todas as coisas. A peça sugere que, às vezes, talvez seja melhor apenas olhar e sentir do que pensar e falar.”

Segundo o autor, a ideia surgiu de sua própria ansiedade sobre a morte e de pensamentos que surgiram em 2000, quando sua mãe teve um intenso período de insônia. “Refleti sobre histórias que contamos para crianças dormirem e em como elas são semelhantes com as notícias. Queremos que o mundo faça sentido, então organizamos todos os mistérios em um enredo.”

Eno escreveu a peça um ano antes dos ataques às torres gêmeas. Para ele, a massiva cobertura jornalística mundial sobre o 11 de Setembro deu ainda mais sentido à peça. A escolha de colocar jornalistas como personagens, no entanto, não configura uma crítica à mídia atual – embora essa seja uma interpretação possível para a peça. Segundo o dramaturgo, os repórteres ajudam a entender como nós, humanos, criamos narrativas para reduzir o medo do misterioso e do desconhecido.

Já sabendo que o espetáculo estrearia no Espaço Cênico, Carolina concebeu a montagem de um modo que pudesse aproveitar as potencialidades do local. As cadeiras são dispostas em duas das quatro paredes da sala, em forma de ‘V’, fazendo com que cada espectador tenha uma visão diferente do espetáculo. A profundidade do lugar é usada em sua totalidade: às vezes, os atores ficam bem próximos do público, outras vezes, vão à outra extremidade. E até uma calçada, que pode ser vista de uma janela, serve de palco. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.