Na sua obra singular, Correspondência de Fradique Mendes, inspirada certamente no diletantismo e no dandismo intelectual de Ruskin, Walter Pater e Oscar Wilde, tipicamente fin de siècle, Eça de Queirós, para caracterizar o estilo do diletante e dândi Fradique, coloca na boca do biógrafo estas palavras significativas: “A prosa de Vossa Excelência é um mármore divino com extremecimentos humanos”.

Não será difícil acreditar que, ao referir-se daquele modo ao autor das Lapidárias, sob muitos aspectos um “alter ego” do próprio Eça, este está pensando na sua própria arquitetura estilística, de que são grandes paradigmas Os Maias e A ilustre casa de Ramires, para não falar de O primo Basílio e O crime do padre Amaro.

Na frase lapidar, em que o mármore divino faz contraponto aos estremecimentos humanos, estava resumida e condensada a essência mesma do estilo eciano. Estilo que, na portuguesa língua, corresponde àquilo que, em francês, foi concebido e implementado pelo “sublime” Flaubert. O adjetivo entre aspas é do próprio Eça.

A verdade é que, sem Flaubert combatendo com tenacidade e denodo o verbo elementar, escrevendo e reescrevendo “ad infinitum” e “ad nauseam” páginas e mais páginas dos seus três romances fundamentais, polindo, limando, burilando frases e parágrafos incontáveis, peneirando cuidadosamente a ganga impura das palavras, em busca do “mot juste” capaz de reproduzir com “ostinato rigore” pensamentos, emoções, sentimentos, sem Flaubert, repito, Eça de Queirós não teria sido possível. Nem sequer imaginável. Sua existência talvez pertencesse ao reino dos impossíveis metafísicos.

Se, com Educação sentimental e Salammbô (Era em Megara, bairro de Cartago, nos jardins de Amílcar), Flaubert nos deu duas autênticas obras-primas, com as luzes e as sombras que lhe são inerentes, com Madame Bovary criou o romance perfeito por excelência. Da primeira à última linha. Técnica e estilisticamente. Estrutural e conteudisticamente. No que superou de longe Balzac, Zola, Stendhal, Victor Hugo e “tutti quanti”. E no que não foi superado por Tolstoi, Dickens, Dostoiewski, Thomas Mann, Joyce ou Proust. Igualado? Talvez. Seja-me permitido o cartesiano e dubitativo talvez.

Considerado, por uns, o arquétipo do romance realista e, por outros, o modelo ideal do romance naturalista, o certo é que a triste história de Emma, com seu cãozinho, espécie de Ana Karênina “petite bourgeoise”, oscilando sempre, num movimento pendular, entre a realidade e a idealização romântica, transcende as fronteiras, por vezes demasiado tênues, entre as duas escolas literárias.

Numa visão ampla e abrangente, a obra romanesca flaubertiana mergulha as raízes do positivismo filosófico de Comte, no experimentalismo científico de Claude Bernard e no determinismo crítico – psicológico e social – de Taine. Mas, em função do fulgor estético, acaba por adquirir uma dimensão e assumir uma grandeza nova.

Reagindo com vigor contra o romantismo alienado e alienante, com sua estreita visão epidérmica e subjetiva, Flaubert opõe-lhe com eficácia a observação minuciosa, a radiografia impassível e neutra da realidade fenomenológica, captada através de uma linguagem que busca ser e acaba por tornar-se espelho do próprio real.

A música elegante, o fulgor implacável, a exatidão emblemática da frase flaubertiana, foram o produto acabado de um esforço quase beneditino de ourives, pintor, escultor e arquiteto. Um esforço que não busca apenas a mera fruição lúdica da arte pela arte, mas que, sobretudo, tenta fazer da forma o invólucro perfeito, o receptáculo ideal para o pensamento, a emoção, o sentimento. Conjugando, interpenetrando e fundindo significado e significante. E, de certo modo, flama, labareda, fogo. É como se o progressivo refinamento estilístico correspondesse, simetricamente, a um requinte não apenas ético, mas espiritual.

Eça de Queirós, o escritor que, no condomínio lingüístico luso-brasileiro, mais deve a Flaubert, escreveu, dias depois da morte do mestre francês, estas palavras comovidas, a um só tempo luminosas e iluminantes, nas quais o próprio estilo eciano cintila e reverbera, esplêndido: “Não é para esta crônica breve estudar o grande, o admirável Flaubert. Só direi que a sua alta glória consistiu em ter sido um dos primeiros a dar, à arte contemporânea, a sua verdadeira base, desprendendo-a das concepções idealistas do romantismo, apoiando-a toda sobre a observação, a realidade social e os conhecimentos humanos que a vida oferece. Ninguém jamais penetrou, com tanta sagacidade e precisão, os motivos complexos e íntimos da ação humana, o sutil mecanismo das paixões, o jogo dos temperamentos no meio social; e ninguém realizou tão penetrante análise numa forma mais viva, mais pura e mais forte”.

Mestre insuperável na recriação da realidade no plano do verbo demiúrgico, que nada fica a dever à realidade autêntica, Flaubert foi acima de tudo um romancista de gênio, um mágico artista da palavra, essa entidade estranha e fantástica que a sua pena, como poucas outras, usa, manipula, modela, ordena, cinzela, burila, esculpe e arquiteta. Em páginas definitivas em que o rigorismo do conteúdo caminha a par da beleza do continente.

Ler, reler Flaubert (da mesma forma que ler, reler Eça, discípulo que, mais que igualar, talvez tenha superado o mestre gaulês, é sempre uma aventura fascinante e enriquecedora. Uma aventura em que, seguindo os caminhos retilíneos do estético, nós atingimos a dimensão exata do humano e, onde, sob o “manto diáfano” da palavra que se torna emblema, nós acabamos por vislumbrar a “nudez crua” da vida multiforme e os contornos palpáveis do mundo poliédrico.