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Teatro contra as nuvens

  • Por Luigi Poniwass
Elenco do Auto da Paixão
e da Alegria: bom começo.

Parece que São Pedro não gostou muito da irreverente versão da Fraternal Cia. de Artes e Malas-Artes para a passagem de Jesus Cristo pela Terra, o Auto da Paixão e da Alegria, que abriu ontem o Festival de Teatro de Curitiba: uma tempestade furiosa caiu sobre a Ópera de Arame, aterrorizando atores e público, e tornando impraticável a já prejudicada acústica do espaço.

Mesmo assim, o espetáculo dirigido por Ednaldo Freire foi a melhor abertura que o FTC teve nos últimos anos. Enquanto raios e trovões se somavam aos efeitos especiais da peça, os quatro atores esbanjavam valentia, improvisando com as goteiras no palco, e se desdobrando para serem ouvidos. O esforço foi reconhecido, com apupos para os “cacos” pluviais e aplausos de pé ao final. O diretor confessou que pretende retornar com a montagem, mas em um espaço menor e, de preferência, sem goteiras.

A atração mais aguardada de hoje é a estréia na Mostra Contemporânea de A Prova, premiada adaptação de Aderbal Freire Filho para a obra de David Auburn. Vinda de temporadas de sucesso no Rio e em São Paulo, e tendo no elenco Andréa Beltrão, José de Abreu, Emílio de Mello e Gisele Fróes, a montagem encenada hoje (às 21h30) e amanhã (às 20h) no Guairão se desenrola a partir da morte de um gênio esquizofrênico da matemática. Fala dos conflitos envolvendo as duas filhas e um jovem fã. Além do texto e da direção, o desempenho de Andréa Beltrão tem sido particularmente elogiado – “quando a gente espera que ela vá para um lado, ela desconcerta o espectador e envereda pela direção oposta, que é sempre a melhor: expressões do corpo, entonações, caras e bocas”, diz a crítica Léa Maria Aarão Reis.

Outro espetáculo que faz a sua primeira sessão hoje às 21h30 na Mostra Oficial é Amor e Restos Humanos, com os mineiros da Odeon Companhia Teatral. Com direção de Carlos Gradim, a peça, que tem outras duas sessões amanhã e segunda às 20h no Barracão 1 da Faculdade de Artes do Paraná, é adaptada do texto de Brad Fraser. Narra a vida pouco convencional e afetivamente problemática de um casal de amigos e seus relacionamentos colaterais. Com um torpor típico de jovens do final de século, as personagens discutem a busca obsessiva pelo amor ideal, a homossexualidade, as drogas, os encontros afetivos, a existência letárgica diante de um mundo em alta velocidade.

Hoje às 20h no Teatro Paiol acontece também a última sessão da estréia nacional da montagem Mire Veja, com os paulistanos da Cia. do Feijão. A adaptação de Pedro Pires e Zernesto Pessoa destrincha o livro Eles Eram Muito Cavalos, de Luiz Ruffato, em vinte histórias curtas, situações fragmentadas que falam da vida vertiginosa em São Paulo.

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Os espetáculos da Mostra Contemporânea custam 20 reais (10 para estudantes).

Retrato Falado trinta vezes

Para Marco Zenni e a Ethos Cia. de Teatro, entrar no Guinness Book é uma obsessão. Depois de encenar o monólogo Lá 25 vezes seguidas no Festival de Teatro de 2001 – e ter o vídeo que comprovava a façanha recusado pela editora do Livro dos Recordes – Zenni ataca novamente: estréia hoje entre os eventos especiais do Fringe o espetáculo Retrato Falado -Dia a Dia, comédia que será apresentada trinta vezes consecutivas, por um elenco de nove atores, o que seria o recorde de encenações consecutivas de uma mesma peça, com o mesmo elenco. Dessa vez Marco Zenni acredita que vai conseguir convencer a organização do Guinness. “Estamos mais preparados”, afirma. O elenco será acompanhado por uma equipe que inclui preparadores físicos, fisioterapeutas, nutricionistas, médicos, fonoaudiólogos e psicólogos.

O espetáculo propriamente dito é uma comédia de autoria de Tereza Frota, que cria um paralelo entre a vida real e a brincadeira infantil do telefone sem fio, contando a história de um personagem que testemunha um suicídio e acaba sendo acusado de assassinato por causa de intrigas e versões fantasiosas.

Escolhido a dedo entre várias possibilidades, o texto já foi premiado em concursos e, segundo o diretor Eberson Galiotto, é o ideal para um projeto desse porte, o maior já realizado pela Ethos. “Vamos mostrar de maneira divertida como a verdade se transforma quando é ouvida e passada adiante por um grande número de pessoas, criando confusão e provocando injustiças”. E demonstra que a companhia não deixou a dramaturgia de lado para quebrar o recorde.

Ensaiando diariamente desde o final do ano passado no Espaço Cultural Odelair Rodrigues, sede da companhia, o elenco não parece assustado com a dimensão do desafio. “Estamos nos preparando muito bem fisicamente e psicologicamente, o que nos dá segurança e atenua a ansiedade. Todos do grupo têm muita energia e disposição, e, principalmente, vontade”, diz Bruna Penélope, a caçula do grupo, com 18 anos.

Independente do fato de entrar ou não no Guinness, a companhia se apresenta no Fringe 2003 com um recorde quebrado: o grupo com o maior número de peças numa mesma edição do FTC. Além de Retrato Falado, a Ethos apresenta Apnéia, Clarice, Esquadros 119 e Transe.

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Em cartaz na Casa Vermelha, em sessões corridas das 12h do dia 29 às 18h do dia 30. Ingressos a 10 reais (5 para estudantes).

Ariano Suassuna no Barracão

Enquanto a Mostra Contemporânea transcorre com pompa e circunstância (e belos cachês) pelos melhores espaços, no Fringe vigora o salve-se-quem-puder. E o burburinho segue sendo a melhor divulgação. O último diz respeito ao espetáculo brasiliense Presépio das Hilariedades Humanas, da Brasil no Palco e Cia. Ilimitada, que entra em cartaz no Barracão da FAP do dia 27 ao dia 30, sempre às 21h.

Trata-se da encenção do terceiro ato da peça A Pena e a Lei, de Ariano Suassuna, uma reflexão divertida sobre a convivência humana e a morte. Na adaptação de Marcos Vinícius, dirigida por Bárbara Tavares e Caísa Tibúrcio, sete personagens típicos do universo brasileiro (o padre, a prostituta, o caminhoneiro, o retirante, o vaqueiro, o fazendeiro e o poeta), que passam por situações cotidianas e cômicas até que, sucessivamente, descobrem que estão mortos e prestes ao julgamento de Deus.

A trama conta ainda com a figura emblemática da morte que funciona como um catalisador dos acontecimentos. Ela narra o prólogo e, juntamente com Deus, faz o desfecho do espetáculo. Algumas pessoas que assistiram aos ensaios informaram que, além da beleza do texto de Suassuna, a companhia brasiliense traz soluções cenográficas interessantes, que resultam numa encenação de encher os olhos.

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O Barracão da FAP fica na Rua dos Funcionários, 1.357, no Cabral. Ingressos a 10 e 5 reais.

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