Começou com as orelhas. Antes que elas crescessem além da conta e passassem a se mexer como se tivessem vida própria, Inaldo Cavalcante de Albuquerque era só um aluno comum da cidade de Abreu e Lima, no interior de Pernambuco. Certo dia, suas orelhas ouviram Luiz Gonzaga cantando Asa Branca e desandaram a aumentar de tamanho. Os amigos de sala perceberam e viram Inaldo se transformar, aos poucos, no famoso personagem de Jornada nas Estrelas: “Fala aí, Spock.”

As orelhas de Spok – o apelido acabou sendo adotado por ele mesmo para a vida toda, sem o C antes do K – seguiram bem abertas. Da escola onde não sabia nada de música para as ruas do frevo de Pernambuco, das ruas do frevo para o grupo do armorial Antonio Nóbrega, do grupo de Nóbrega para sua própria orquestra e com sua orquestra para as graças de Wynton Marsalis, Inaldo Spok voou alto.

Uma de suas últimas decolagens o levou com mais 16 instrumentistas de sua Spokfrevo Orquestra até o sudoeste da França, onde se apresentaram no festival Jazz in Marciac. O trompetista Wynton Marsalis ficou com a pulga atrás da orelha. Ao final do show, se aproximou esbaforido antes mesmo que o brasileiro conseguisse chegar ao camarim: “O que foi isso?”

Um dos maiores expoentes do jazz norte-americano, diretor da programação de concertos do Lincoln Center, Marsalis queria saber o que era aquilo que havia acabado de acontecer diante de seus olhos.

Quando os integrantes da orquestra de Spok assumiram seus lugares no palco do teatro, todas as primeiras impressões da plateia bateram na trave. Os músicos usavam terno e gravata mas não eram jazzistas. Vinham do Brasil mas não tocavam samba. Enfileiravam instrumentos de sopros ao lado de guitarra, baixo e bateria mas não se comportavam como uma big band. Faziam uma música de frases ágeis e curtas, de muitas notas e convenções escritas trabalhosamente em partitura, mas com um ritmo quebrado de tal forma que não valeria a pena tentar aproximá-los do bebop de Charlie Parker. Afinal, como perguntou Marsalis, o que era aquilo?

Aquilo é uma revolução que Inaldo Spok Cavalcante, 43 anos, tem feito há uma década pelas vielas do seu Recife. “Reci… what?”, perguntava Marsalis. Spok explicou onde ficava sua cidade e o trompetista encurtou o assunto para chegar logo onde queria: a Spokfrevo Orquestra é sua convidada para apresentações no Lincoln Center, dias 24 e 25 de outubro.

Spok é jovem e tem um carro alegórico de sonhos a realizar, mas já loteia espaço na linha da evolução musical brasileira por aquilo que tem feito desde que ouviu Asa Branca e decidiu criar um novo conceito de frevo. Ele tirou o gênero das costas dos passistas e da sombra das sombrinhas e o colocou à frente do palco. O vestiu de esporte fino para um casamento com o jazz e lhe deu vida própria. Sua música ganhou com isso uma força incontrolável a ele mesmo, o maestro, e parece explodir desde a primeira nota.

Como no jazz, os temas são apresentados no início e os improvisos rolam solto durante o percurso, mas o idioma falado é outro. Os 17 instrumentistas muitas vezes dividem as vozes de uma mesma frase, algo que cria um impacto impressionante e que a linguagem de seu frevo usa como arma.

Ninho de Vespa é o nome do disco que a Spokfrevo lança agora, uma série de 13 temas escritos por autores como Dominguinhos, Nelson Ayres e Hamilton de Holanda (leia mais abaixo). Ninho de Vespa é também o nome de uma das faixas do disco, criada por Dori Caymmi e letrada por Paulo Cesar Pinheiro nos tempos em que Spok ainda fazia as orelhas mexerem na sala de aula.

Inaldo só não nasceu em Igarassu porque aquela que era para ser sua cidade natal não tinha maternidade. A mãe grávida correu com o menino esperneando no ventre até a vizinha Abreu e Lima e se internou. Foi um parto complicado que deixou mãe e filho sob cuidados por 40 dias, bem sucedido ao final graças à boa vontade de um médico chamado Inaldo. O mínimo que a família faria era deixar o garoto levar o nome de seu primeiro super-herói.

A música chegou por uma necessidade de socialização. Inaldo estudava em uma sala de aula na qual conviviam vários amigos que estudavam música e só falavam musiquês. Sem ideia do que eram fusas e semicolcheias, Spok só conseguia se aproximar falando futibolês. Um colega o percebeu deslocado e foi ao socorro. “Você quer aprender música, Spok?” Nos intervalos, o amigo ensinava como é que aqueles garranchos escritos em cinco linhas poderiam ganhar vida. De uma flauta doce, seu primeiro instrumento, tudo começou a fazer sentido quando Spok conseguiu tocar ela, a Asa Branca.

Em julho de 2013, a orquestra de Spok seguiu para Londres, no Ronnie Scott’s Jazz Club, a fim de lançar Ninho de Vespa por lá antes mesmo de trazê-lo a São Paulo.

Foi um tiro certo.

O crítico Clive Davis, do The Times, justificou assim as cinco estrelas que deu para o som que já havia feito Wynton Marsalis perder o rumo de casa. “Quando o alinhadamente trajado saxofonista Inaldo Cavalcanti de Albuquerque – também conhecido como Spok – explica que seus músicos estão acostumados a tocar durante oito horas seguidas no Carnaval do Recife, dá para sentir que ele não está exagerando. É a mais explosiva banda a tocar no Soho desde os gloriosos dias da afro-cubana Irakerê (na qual tocava Chucho Valdés). A banda do estado brasileiro de Pernambuco é uma verdadeira força da natureza.” Os comentários seguiam distribuindo rosas até terminarem com uma frase isolada: “Extraordinary.”

Doutor Spok estaria flanando em nuvens não fosse um detalhe: ele ainda não está satisfeito. O frevo que leva para os teatros e clubes de jazz do mundo não frequentou academia. Tem grandes mestres que o próprio Spok vai homenagear assim que for lançado o documentários Sete Corações, uma produção que vai contar a vida e os feitos dos sete grandes do frevo pernambucano, os maestros Nunes, Clóvis Pereira, Edson Rodrigues, Duda, Ademir Araújo, Guedes Pereira e José Menezes, morto recentemente, depois de ver as primeiras cenas finalizadas. É um patrimônio, mas não é tudo.

Spok sente que só a tradição deixa o teto baixo demais para quem quer estar no topo do mundo. O frevo autodidata que aprendeu tudo pelas ruas de Olinda e Recife precisa se formar. “Não estou preocupado com a alma. Ela é forte e poderosa por si, ela está garantida. O que me preocupa é a qualidade da música”, diz ele.

Em outras palavras, não vale transpor aquilo que se sabe, ou pensa que se sabe, do jazz para o frevo. “Eu nunca vou falar a palavra ‘noite’ da mesma forma como vocês falam em São Paulo. Eu nunca vou tocar jazz como o Charlie Parker. Da mesma forma, quando falamos em método para música pernambucana, não temos que olhar para Charlie Parker, temos que olhar para Dominguinhos.” As orelhas de Spok devem levá-lo ainda mais longe, assim que identificarem os primeiros talentos dentre os alunos de um curso de frevo que ele está prestes a abrir no Recife. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.