Brody e Nicole: lágrimas
e prêmios de performance.

A 75.ª edição do Oscar teve protestos pela paz, a vitória de Chicago como melhor filme e a surpresa na premiação do diretor Roman Polanski e do ator Adrian Brody, por O Pianista. Foi uma festa sóbria, marcada por manifestações do lado de fora do Teatro Kodak, em Los Angeles.

A festa de domingo começou tensa, com um Steve Martin desconfortável no papel de anfitrião. O desconforto continuava na platéia e no palco, onde os artistas contrários à guerra limitavam-se a protestar timidamente, muitos exibindo discretos broches reproduzindo a pomba da paz desenhada por Pablo Picasso.

Chris Cooper foi o primeiro premiado a tocar diretamente no assunto da guerra. “Em vista de todos os problemas mundo afora, quero desejar paz a todos”, disse o melhor ator coadjuvante, por Adaptação.

Coube a Michael Moore protagonizar o mais ríspido protesto contra os ataques ao Iraque. Vencedor do Oscar na categoria documentário, por Tiros em Columbine, disse: “Nós documentaristas trabalhamos com a realidade e não com a ficção e a guerra é por um motivo fictício. Vivemos em tempos fictícios, temos um presidente fictício, e a guerra tem motivos fictícios.” E acrescentou: “Temos um homem nos mandando à guerra e é uma vergonha você, Bush; o Papa e todos estão contra você”.

O discurso constrangeu a platéia. Parte ensaiou uma vaia, tímida, parte pareceu satisfeita que alguém fizesse, finalmente, um discurso mais agressivo, como temiam os organizadores da festa. O desconforto encontrou alívio no belo discurso de Adrien Brody, melhor ator por O Pianista. Falou da “tristeza e desumanização de uma guerra”, acrescentando: “Se você acredita em Deus ou em Alá, vamos rezar por uma solução pacífica e segura”. Foi o discurso mais aplaudido do Oscar, e pareceu carregar toda a dificuldade, ou incapacidade, que os atores e atrizes presentes sentiam para encontrar um tom correto que equilibrasse a vocação festiva do prêmio e o drama dos ataques ao Iraque.

Também Nicole Kidman, que venceu seu primeiro Oscar por As Horas, lamentou a guerra. Ela se disse emocionada por estar ali, “na Academia, enquanto o mundo está nesta turbulência, porque a arte é importante, porque vocês acreditam no que fazem e querem dar um tributo a isso, por um lado”. Pedro Almodóvar, uma positiva surpresa por ter sido premiado com o Oscar de melhor roteiro original (é raro filme de idioma estrangeiro vencer nas principais categorias), por Fale com Ela, também levantou aplausos, ao dedicar seu prêmio aos que “levantam suas vozes para defender a paz, a democracia e a legalidade internacional”.

O prêmio mais esperado da noite foi apresentado por pai e filho. Kirk e Michael Douglas anunciaram o melhor filme na edição 2003 do Oscar: Chicago, o primeiro musical a ganhar o prêmio desde Oliver!, em 1968. Em 1972, Cabaret, de Bob Fosse, ganhou oito estatuetas, mas não levou a de melhor filme; Fosse, por coincidência, foi o autor do musical da Broadway que deu origem a Chicago. O filme, com maior número de indicações, ganhou ainda por atriz coadjuvante, direção de arte, figurino, montagem e som.

O Pianista, que estava em quarto lugar na lista das preferências, com sete indicações, precedido por Chicago (13), Gangues de Nova York (10) e As Horas (9), terminou a noite com três prêmios dos mais importantes: melhor ator, diretor e roteiro adaptado. Esta premiação deixa o filme do diretor Roman Polanski em vantagem ao do musical. E Polanski nem estava lá, por ser fugitivo da justiça americana desde os anos 70.

A surpresa ficou com a total ausência de prêmios para Gangues de Nova York. As Horas, de Stephen Daldry, saiu apenas com o prêmio de melhor atriz para Nicole Kidman que fez o papel da escritora Virginia Woolf e teve que usar uma prótese no nariz para interpretá-la, motivo de piadinhas de Steve Martin e Denzel Washington, que disseram que ela venceu pelo nariz.

Frida, com seis indicações, obteve o Oscar de maquiagem e de trilha sonora, o que inclui a música Burn It Blue (ou Quemémosla en Azul), música de Elliot Goldenthal e Julie Taymor que concorreu ao prêmio de melhor canção original e que foi interpretada em dueto pela cantora mexicana Lila Downs e por Caetano Veloso, chamado ao palco do Teatro Kodak pelo ator mexicano Gael García Bernal, de O Crime do Padre Amaro, com adjetivos como “maravilhoso” e “talentoso”.

Caetano Veloso até que defendeu bem a música-tema de Frida, mas o prêmio de melhor canção acabou com Eminem, por Lose Yourself, de 8 Mile – Rua das Ilusões. Quebrando uma tradição recente do prêmio, o rapper não foi à cerimônia mostrar a música candidata, recusando-se a fazer um show “família”, mais contido, conforme pedido da organização da festa.

Houve momentos elegantes na festa, sendo o maior deles quando Peter O?Toole, o homenageado da noite, resumiu a alegria ao receber seu prêmio depois de ter sido esnobado por sete vezes. “Agora – disse – tenho meu próptio Oscar para ficar comigo até minha morte”.

Mas a guerra foi mesmo a tônica, lembrada até no encerramento da contida festa, quando Steve Martin a dedicou aos soldados em combate. E anunciou o que o mundo deseja: “Esperamos que vocês voltem logo”.

Lista dos vencedores

Melhor filme: Chicago

Diretor: Roman Polanski, O Pianista

Ator: Adrien Brody, O Pianista

Atriz: Nicole Kidman, As Horas

Atriz coadjuvante: Catherine Zeta-Jones, Chicago

Ator coadjuvante: Chirs Cooper, Adaptação

Roteiro original: Fale com Ela, Pedro Almodóvar

Roteiro adaptado: O Pianista, Ronald Harwood

Fotografia: Estrada para Perdição

Filme estrangeiro: Nowhere in Africa, Alemanha

Trilha sonora original: Frida, de Elliot Goldenthal

Melhor canção: Lose Yourself, de Eminem e Jeff Bass, 8 Mile

Melhor montagem: Chicago

Melhor som: Chicago

Edição de som: O Senhor dos Anéis: as duas torres

Melhor figurino: Chicago

Melhor direção de arte: Chicago

Melhor animação: A Viagem de Chiriro – Spirited Away

Efeitos especiais: O Senhor dos Anéis: as duas torres

Melhor documentário: Tiros em Columbine

Melhor curta: This Charming Man

Melhor curta de animação: The Chubbchubbs!

Melhor curta documentário: Twin Towers

Ewald Filho conta história do Oscar

Apenas horas depois da transmissão da cerimônia da Academia, aconteceu ontem o lançamento do livro de Rubens Ewald Filho: O Oscar e Eu. E assim o crítico de cinema brasileiro bateu o recorde como o livro que mais rapidamente publicou a relação dos vencedores, comentários e curiosidades sobre a cerimônia de premiação do Oscar 2003.

Por sugestão de sua editora Ibep/Nacional, Rubens topou o desafio inédito de lançar um livro sobre o Oscar, com a lista de vencedores, comentários e curiosidades cerca de doze horas após a cerimônia de entrega dos prêmios.

Com a maior parte de suas 336 páginas escritas, somente o último caderno foi redigido por Rubens imediatamente após o término da transmissão pelo SBT, que ele próprio apresentou ao lado de Marília Gabriela. O crítico teve então cerca de três horas para sentar-se ao computador e redigir o capítulo de encerramento, constando a relação dos vencedores, comentários e curiosidades do evento. Feito isso, transmitiu por e-mail o texto para o parque gráfico da Ibep/Nacional, para impressão, encarte e finalização, colocando o livro editado e pronto, em seu formato definitivo, na noite de autógrafos.

O leitor vai encontrar uma vasta gama de informações sobre o cinema e seu prêmio máximo, tudo numa linguagem clara e acessível, permeada pelo bom humor e conhecimento do crítico mais popular no Brasil, além de jogos e brincadeiras sobre o assunto.

Os assuntos estão divididos em capítulos cujos títulos levam o nome de filmes famosos, propondo uma brincadeira de adivinhação para o leitor, que encontrará entre outros Os Deuses Vencidos, A Grande Ilusão, Um Estranho no Ninho, Terra Estrangeira, A Vergonha de Uma Nação, Quiz Show, Como Vencer Na Vida Sem fazer Força.

Rubens assistiu a mais de 21 mil filmes e acaba de completar sua vigésima festa do Oscar como apresentador e comentarista, uma trajetória que começou na TV Globo, passou por três anos no SBT, retornou à Globo, teve uma experiência solitária na HBO, e prossegue novamente no SBT, onde, segundo ele mesmo, formou uma parceria ideal com Marília Gabriela.