Denzel Washington é uma
das atrações do filme.

É interessante que o primeiro Sob o Domínio do Mal tenha sido lançado em 1962, durante a guerra fria, e a sua refilmagem saia agora, no pós-11 de setembro. A nova versão, dirigida por Jonathan Demme estréia hoje. Interessante, mas nada surpreendente porque são filmes que ganham sentido em ambiente paranóico. Aquele tipo de ambiente onde não convém confiar em ninguém, no qual o inimigo pode estar além da fronteira, mas pode também ser o seu vizinho, o seu amigo, o seu colega de trabalho.

Esse clima é um pouco estranho para o brasileiro, a não ser que ele tenha vivido durante a ditadura militar, quando qualquer estranho que nos dirigisse a palavra era tido como agente disfarçado. Nos Estados Unidos é diferente. Dado o grau de intervenção do país no exterior, as paranóias são até justificáveis. Em 1962, houve a crise dos mísseis em Cuba, com a instalação de ogivas nucleares a 100 milhas da Flórida. No começo do século 21, o ataque às torres gêmeas e ao Pentágono. Mundo, externo e interno, ameaçadores.

Denzel Washington vive o oficial que tem pesadelos reais demais com os combates vividos no Iraque, durante a Guerra do Golfo. Meryl Streep é uma política manipuladora que quer fazer do seu filho (Liev Schreiber) o novo vice-presidente americano. Schreiber é Raymond Shaw, voltou da guerra cheio de condecorações, mas, à medida que o filme vai acontecendo, você nota que é improvável que ele tenha sido mesmo um herói de guerra.

Para traduzir esse ambiente paranóico, Jonathan Demme (que tem crédito por seu “O Silêncio dos Inocentes”) cria um visual soturno, opressivo, que tem lá sua força no começo do filme, mas depois vai se barateando à medida que as coisas evoluem. Um destaque no elenco é Meryl Streep, que contou em Veneza, onde o filme foi apresentado fora de concurso, que havia se inspirado em Margareth Thatcher para compor a sua personagem. “Usei até brincos, colares e tailleurs parecidos com os dela”, disse.

Thatcher firmou-se no imaginário popular como figura implacável e manipuladora. Se essa imagem corresponde ou não à realidade é outra história, mas serviu muito bem como fonte de inspiração para Meryl. A sua senadora tem força, convicção, persuasão.

Falta é estofo à história. Nos anos 60 imperava a idéia da “lavagem cerebral” com o que os pérfidos comunistas convenceriam os filhos do capitalismo a abandonar as alegrias da economia de mercado. Essa idéia ficou tão démodé quanto os manuais de materialismo dialético.

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