Deep Purple seria a atração de ontem no Expotrade.

Dessa vez Curitiba deve ser definitivamente riscada do mapa dos grandes eventos de música, no Brasil e no exterior. Depois de uma lambança sem precedentes na história do show biz nacional, o festival Kaiser Music acabou cancelado de forma melancólica, horas antes da abertura dos portões, enquanto os atônitos integrantes das bandas Deep Purple, Sepultura e Hellacopters aguardavam para fazer a passagem de som e os primeiros fãs chegavam ao Expotrade, em Pinhais. O dinheiro das cerca de 9 mil pessoas que já tinham comprado os ingressos começará a ser devolvido na terça-feira, no mesmo local onde foram adquiridos.

A suspensão ocorreu graças a uma liminar assinada pela juíza Márcia Regina Hernandes de Lima, da comarca de Pinhais, que atendeu à ação cautelar inominada solicitada pelo Ministério Público. A promotoria pedia o “cancelamento do concerto em virtude de laudo do Corpo de Bombeiros, que atesta que o local escolhido (…) não oferece condições de segurança para o público”.

O produtor nacional do evento, Manoel Poladian – o maior do País, com 40 anos de carreira e 18 mil shows no currículo – contesta o laudo dos Bombeiros e critica a decisão da juíza: “É uma vergonha. A Justiça de Pinhais reteve o processo até as 16h, para que não tivéssemos tempo de entrar com um agravo de instrumento”, disse ontem a O Estado. “E a juíza pegou carona no laudo dos Bombeiros, que era completamente equivocado. O show era plenamente realizável, tomamos todas as providências, tínhamos um laudo pericial e a liberação anterior do Corpo de Bombeiros. E essa liminar apareceu hoje (ontem), depois de um laudo emitido ontem (quinta). Poderiam ter se manifestado antes”. Poladian já foi empresário dos Titãs e trouxe ao Brasil gente como Tina Turner, David Bowie, Sting, Echo & The Bunnymen. “E nunca tive nenhum problema”.

Prejuízo

As bandas – todas pagas previamente – jantariam em Curitiba e seguiriam para São Paulo, onde o show acontece hoje no estádio do Pacaembu. “Tive um prejuízo de mais de 500 mil reais, quero ver quem vai arcar. Por enquanto sou eu, mas vou tomar as medidas judiciais cabíveis contra as autoridades co-autoras”, garantia ontem o produtor. Questionado sobre quem seria acionado judicialmente, ele relacionou apenas o Corpo de Bombeiros e a Fundação Cultural de Curitiba, que, segundo ele, “reservou a Pedreira Paulo Leminski [local original do festival, vetado pelo Corpo de Bombeiros na semana passada], não assinou o contrato e depois determinou a mudança para o Expotrade”.

“Safadeza”

Poladian disse ter sido a pior experiência na sua longa carreira no show biz: “A pior pela safadeza. É uma infelicidade para a cidade ter essas pessoas aqui, e enquanto elas estiverem por aqui, eu não faço mais nenhum evento em Curitiba. E vou avisar aos outros produtores para tomarem cuidado, porque hoje compensa mais fazer em Joinville do que aqui, pelo menos as autoridades são mais velozes. A gente só fica triste por causa do público, gostamos muito do público de Curitiba e sempre consideramos a cidade um pólo cultural”, finalizou.

Bombeiros e FCC se defendem

Segundo o tenente Luiz Alberto de Lima, do 6.º Grupamento do Corpo de Bombeiros de São José dos Pinhais, que atende à Região Metropolitana, a corporação foi solicitada para fazer a vistoria na segunda-feira, e a autorização para a realização do evento no Expotrade cassada na terça. “A produção recebeu a notificação por volta das 16h, mesmo os Bombeiros tendo dez dias de prazo para fazer a vistoria”, ressaltou.

Ele disse que o certificado que permitia a utilização do espaço datava de outubro de 2002, com validade do um ano. “Mas existe um item no contrato que reserva aos Bombeiros o direito de cassar a autorização se houver problemas de segurança”, completou. Esses problemas se restringiriam ao número insuficiente de saídas de emergência: “De acordo com a norma 9077/93 da ABNT, não havia saídas de emergência suficientes para o público estimado pela produção, que era de 20 mil pessoas. Além disso, foram feitas obras de ampliação, mezanino, que não constavam do projeto”.

Em defesa da Fundação Cultural de Curitiba (FCC), citada na questão da liberação da Pedreira, o presidente Cassio Chamecki disse que compreendia a revolta de Manoel Poladian, e completou que ele teria dado as declarações “no calor da situação”. “Mas tanto ele quanto a Canal de Eventos (produtora local), acompanharam de perto os esforços da Prefeitura e da Fundação para intermediar uma solução com o Corpo de Bombeiros, para que fosse permitida a realização na Pedreira”, acrescentou.

“Estive pessoalmente em várias reuniões com o Corpo de Bombeiros, e fizemos tudo o que foi solicitado, mas sempre há uma nova demanda”, comenta. “Eles pediram plano de prevenção de incêndio, nós enviamos e até agora não obtivemos resposta; pediram a ampliação dos portões de saída, foram alargados; pediram a mudança no sentido dos portões, foram mudados; reduziram a capacidade de 40 para 20 mil pessoas, nós acatamos.

Definição

Para o presidente da FCC, basta um posicionamento mais claro dos Bombeiros: “Só precisamos que o Corpo de Bombeiros decida quais são as necessidades, o que precisa ser feito, que nós faremos – desde que seja viável. Consideramos a Pedreira um dos melhores e mais seguros eventos para a realização de shows no Brasil. Sinto-me envergonhado por morar numa cidade de 1,5 milhão de habitantes e não poder contar com um lugar para espetáculos, tendo o melhor deles”. O Estado tentou contactar o comando do Corpo de Bombeiros na capital, mas não encontrou nenhum oficial que pudesse dar declarações.