Transcorreu ontem uma efeméride das mais significativas: o sesquicentenário de morte do maior poeta polonês, Adam Mickiewicz (1798?1855). Se, como se tem proclamado inúmeras vezes, Shakespeare é a Inglaterra, Dante, a Itália, Cervantes, a Espanha, Goethe, a Alemanha, e Camões, Portugal, não há dúvida que Mickiewicz é a Polônia.

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Como os nomes citados, o magistral autor de Sonetos da Criméia, Livro da nação e dos peregrinos poloneses e Senhor Tadeu, representa, encarna, traduz, consubstância, nas entranhas da sua obra, a alma da sua pátria ciclicamente esquartejada por russos e prussianos ? e por eles durante muito tempo dominada.

Provavelmente, nenhum outro grande poeta do mundo é tão visceralmente patriota, nacionalista, como o polonês. E esse sentimento não é apenas retórico: é exercitado, a um só tempo, com a pena e a espada. Como Camões, também ele poderia dizer, dirigindo-se à Pátria: ?Para servir-te, braço às armas feito, para cantar-te, mente às Musas dada?.

Sob a influência direta de Goethe, Mickiewicz, que teria lido a versão francesa de Os Lusíadas, produz aquela que pode ser considerada sua obra-prima: Senhor Tadeu?.Um título simples, anódino, para uma obra engajada, comprometida, arco-irisada, pujante. Espécie de poema épico marcado pela torrencialidade cantante, epopéia lírica, paradoxalmente lírica, de cerca de doze mil versos. Versos não de dez ou doze, mas de treze sílabas.

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 Na sua exuberante textualidade, Senhor Tadeu é uma admirável panorâmica da vida, da história, do homem e da realidade polonesa. Perpassa nela, avassaladora, a visão ? e talvez fosse mais adequado falar em cosmovisão ? de uma Polônia engrandecida, destinada a desempenhar um papel transcendente na redenção da humanidade, em função até do seu extremo catolicismo, em termos religiosos.

 Nesse aspecto, a epopéia eslava se aproxima ? e eu confesso que jamais vi essa aproximação estudada, ou mesmo sugerida ? do mito do Quinto Império, que o padre Antônio Vieira, na linha das profecias do Bandarra, desenvolve na sua ?História do futuro?, prognosticando para Portugal uma destinação idêntica. O misterioso monge Rabak, aliás, tem qualquer coisa do sebastianismo, do mito sebástico que o gênio dos ?Sermões? retoma e desenvolve, na sua prosa maiúscula. Seja como for, o certo é que Mickiewicz limitava-se a dar voz às concepções messiânicas presentes no teosofismo exacerbado do seu compatriota Andrzej Towianski. As afinidades e as simetrias luso-polonesas são transparentes, para quem quer que se detenha com atenção sobre elas.

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Pela força galvanizadora dos seus versos, nitidamente precursores do Simbolismo, pela pureza transfigurada da dicção, pela sonoridade mágica do timbre, pela fidelidade extrema às raízes e tradições nacionais, pela coexistência do substrato lírico e do tom épico com uma espécie de barroquismo na arquitetura poemática, Mickiewicz pode ser considerado, sem favor, o maior poeta polonês de todos os tempos. Mais: tem o seu nome indelevelmente inscrito entre a plêiade emblemática dos grandes da poesia universal. Com toda a justiça.