Filmes brasileiros planejados para virar blockbusters têm fracassado na bilheteria. As biografias filmadas de Tim Maia e Joãosinho Trinta podem ser bem-feitas, mas o recorte autoral dos diretores Mauro Lima e Paulo Machline não tem seduzido o público. O problema não é de falta de suingue, como proclamam os críticos de Tim Maia, o filme. O personagem, esculpido com base na realidade, é insuportável – a atuação de Flávio Bauraqui é impecável. Joãosinho, em Trinta, é o antiapoteótico. O diretor Machline o filma isolado, solitário, raivoso no barracão do Salgueiro.

Se o cinema de mercado vai mal – o drama, porque as comédias sempre andam melhor -, há um cinema pequeno, de autor, de invenção, que cava, apesar de tudo, seu espaço. Ventos de Agosto, de Gabriel Mascaro, em cartaz em São Paulo, integra a programação da 6.ª Semana dos Realizadores, que começou quarta-feira para convidados, no Rio.

Na quinta-feira, a abertura foi intensificada com a master class de um dos homenageados deste ano, Kleber Mendonça Filho. A Semana está promovendo uma retrospectiva que resgata até vídeos que ele fez nos anos 1990. A master class foi reveladora de obras e autores que ajudaram/ajudam a formatar a visão de cinema do diretor de O Som ao Redor. Um curta de Claude Lelouch (C’Était Un Rendez-Vous) e um longa de Elem Klimov (o visceral Vá e Veja) renderam observações muito interessantes.

A mostra competitiva compõe-se de 12 curtas e 12 longas, garimpados entre mais de 100 títulos longos e de outros tantos (500) curtos. As exibições são sempre seguidas de debates com os realizadores. Por falar em debates, a Semana promove neste sábado, 22, dois – e bem importantes. Um debate com montadores de filmes que integram a seleção e outro de introdução à preservação de matrizes audiovisuais digitais, com o especialista Hernani Heffner. Só para participar desses encontros já valeria estar na cidade chamada de maravilhosa.

Lis Kogan, diretora e curadora da Semana, comemora o crescimento do evento. A cada ano, a Semana tem somado – prestígio, público, até patrocínios. Este ano, a Petrobrás e a RioFilme entraram com grana e isso permite ampliar o alcance, que realiza sessões em diferentes pontos da cidade, não apenas no Espaço Itaú da Praia de Botafogo, que tem sido parceiro nestes anos todos. Por se tratar de um evento de cinema não referendado pelo deus mercado, o objetivo da semana é justamente integrar quem está de fora. Lis esclarece que até gostaria de levar a Semana para São Paulo, mas prefere centrar fogo no Rio, que lhe parece mais desassistido nesse cinema mais radical de autor. São Paulo, afinal, tem a sua edição da Mostra de Tiradentes, o Festival Indie. Lis poderia acrescentar o evento ‘Da Quebrada’, que ocorre na Galeria Olido, nesta semana.

Veio da Mostra Aurora – vencedor dos prêmios do júri e da crítica – o maravilhoso longa de Affonso Uchoa, A Vizinhança do Tigre, exibido na noite desta quinta. Cinco amigos que vivem no bairro Nacional, na periferia de Contagem, Minas Gerais. Quatro participaram da seção – Juninho, Menor, Neguinho e Adilson. O quinto, Eldo, morreu e o filme lhe é dedicado. O que falam, como se movimentam, agem esses jovens é o próprio tema de Uchoa.

Assimilando letras de rap, eles se comunicam entre si. E quando cantam ‘Eu queria mudar/eu queria mudar’, é toda uma geração ‘da quebrada’ que afirma sua identidade. A luta desses garotos é para driblar as dificuldades e domar o tigre dentro deles, sintetizou o diretor. A 6ª Semana inicia uma inédita parceria com o Indie Lisboa, que selecionou alguns filmes representativos do sangue novo que revitaliza a produção portuguesa. São obras como Rafa, de João Salaviza, Cama de Gato, de Filipa Reis e João Miller Guerra, e Campo de Flamingos sem Flamingos, de André Príncipe. E há também o outro homenageado, Luiz Rosenberg, que apresenta na mostra Mestres seu novo longa, Dois Casamentos.