Bianca Rinaldi,
na pele de Júlia/Júlio.

A nova adaptação do SBT para uma trama da mexicana Televisa não tem nada de nova. A novela Pequena Travessa não foge do lugar-comum que impera neste tipo de produção-dramalhão. A começar pela trama ingênua, bastante semelhante às antecessoras Pícara Sonhadora e Marisol.

A história conta a vida da pobre Júlia, uma órfã de mãe que logo no primeiro capítulo se transforma em arrimo do pai aleijado. A moça, é claro, se apaixona por um rico herdeiro. Esta descrição se encaixa quase perfeitamente na sinopse de Pícara Sonhadora, também estrelada pela bela ex-paquita Bianca Rinaldi, que era a Mila da trama. Por isso, a escolha da protagonista também não podia ser mais óbvia.

A personagem, por enquanto, não passa de caras e bocas. Sempre inexplicavelmente alegres e alto-astral. O problema é que Bianca Rinaldi não conseguiu deixar a pícara sonhadora em casa e emprega em Júlia os mesmos trejeitos deslumbrados da primeira personagem. No mesmo time da protagonista, Rodrigo Veronese interpreta o tal herdeiro bonitão e idealista, Alberto. O ator nem tenta escapar do estigma de galã, que costuma espantar muitos atores, que é ser um rostinho bonito sem maiores expressões faciais.

É verdade que Pequena Travessa reserva algumas dificuldades para o casal de protagonistas. Bianca Rinaldi tem a complicada tarefa de transformar a personagem Júlia em Júlio – a menina precisa conseguir um emprego de “office-boy” para sustentar o pai, que é atropelado e fica paralítico. Rodrigo Veronese tem uma missão ainda mais complexa: acreditar que Júlia e Júlio são pessoas diferentes. O garoto conhece as duas versões de Júlia e, por obra de embotamento ou miopia, não percebe que se trata da mesma pessoa. Muito pelo contrário. O riquinho fica amigo de Júlio e acaba tornando-o seu confidente para a história de amor dos pombinhos. É risível, embora a produção não tenha queda para o humor.

Mas nem só de delírios vive a história. Alguns atores recém-contratados pelo SBT conseguem emprestar algum charme e graça à trama. Gustavo Haddad é um deles. O ator deixou de lado os trejeitos efeminados que usou para interpretar um seminarista em A Padroeira para dar masculinidade na dose certa a Pato, um dos “bad-boys” da gangue de Mercúrio, papel de Nico Puig. Fábio Vilaverde também não decepciona como Caio, o melhor amigo apaixonado da pobre moça -papel que não poderia faltar em um autêntico dramalhão. Fugindo do estereótipo “coitadinho”, normalmente usado pelos atores que são “agraciados” com tal personagem, Fábio conseguiu tornar Caio bastante charmoso. A tal ponto que, se a história já não tivesse o fim definido – inclusive o contrato do SBT com a Televisa impede qualquer modificação -, seria bem provável que Júlia trocasse o insosso Alberto pelo “amigão” sedutor.

Nico Puig, por sua vez, interpreta um novo malvadão em sua carreira, mas à maneira antiga. Ou seja: manjada. Mercúrio é o típico líder da gangue do bairro. A começar pela roupa. O rapaz anda sempre com uma jaqueta de couro preta e óculos Ray-Ban caídos na ponta do nariz, para que ele possa dar a tradicional olhada por cima das lentes nas gatinhas que circulam pelo pedaço. Raquel Ripane, por outro lado, conseguiu, ao interpretar Débora, fugir das caras perversas e deu um tom morno para a personagem que vai disputar o amor do galã com a mocinha.

Apesar das altas doses de mesmice, Pequena Travessa parece ter despertado a curiosidade dos telespectadores. Mesmo sem nenhum intervalo comercial para dar um descanso ao público, no primeiro dia de exibição a trama ficou em segundo lugar na audiência do horário com 19 pontos de média e picos de 21 – Marisol costumava atingir uma média de 16 pontos. E, justiça seja feita: alguns motivos ela tem para isso. Em Pequena Travessa a cidade cenográfica, os cenários, a iluminação e os figurinos estão mais cuidados e escapolem da velha estética mexicana, que costuma ter cores excessivamente berrantes e detalhes para lá de cafonas nos ambientes.