Existem autores que não cessam de clamar por reconhecimento. O inglês Peter Yates, que morreu há exatamente um ano (em 9 de janeiro de 2011), é um deles. Rubens Ewald Filho chega a duvidar, no Dicionário de Cineastas, que o mesmo homem que fez “Bullitt”, com Steve McQueen, tenha trabalhado no teatro com textos de Edward Albee. Não é o único a desconfiar de que não se possa aplicar a Yates o rótulo de ‘autor’. Mas ele foi, e grande. Só foi sempre difícil de enquadrar.

Logo depois de mostrar McQueen naquela louca corrida pelas ruas de São Francisco – “Bullitt” estabeleceu um paradigma nas cenas de perseguições que todo diretor de ação se esmera em tentar superar -, o que fez o cineasta? Trancou-se num apartamento e fez “John & Mary” em apenas um cenário, com dois personagens.

Dustin Hoffman e Mia Farrow formam o casal que parte do relacionamento de uma noite para alguma coisa mais duradoura. Começam fazendo sexo e terminam apresentando-se – ‘Eu sou John’, ‘Eu sou Mary’. No intervalo, e são cerca de 90 minutos – a duração total é de 92 min -, falam compulsivamente. O francês François Truffaut definia o amor como oposição entre gesto impulsivo e palavra consciente. Hoffman e Mia, passada a satisfação que o impulso proporciona, tateiam com as palavras, em busca de entendimento.

Filmes como “Eu Te Amo”, de Arnaldo Jabor, repetiram, mais tarde, a mesma ideia ou conceito. Paulo César Pereio e Sônia Braga também partem da ligação de uma noite, mas Jabor nem precisa negar que viu “John & Mary”. O filme dele é sobre dois personagens maduros, com histórias de vida – e frustrações amorosas – por trás deles. O de Yates é sobre uma dupla que se inicia nas artimanhas do sexo. E nisso vai toda uma diferença.

O espectador que hoje assiste a “John & Mary” não faz ideia do que era um filme desses em 1969. Ao longo de toda a década – os transformadores anos 1960 -, o cinema, e Hollywood, haviam passado por uma verdadeira revolução comportamental. Ela foi anunciada pelos filmes da nouvelle vague francesa, por Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg que, em “Acossado, À Bout de Souffle”, de Jean-Luc Godard, faziam sexo e conversavam, e depois faziam sexo de novo e conversavam mais.

Na sequência vieram a pílula e a minissaia, e o cinema e os comportamentos mudaram de vez. Até Hollywood arquivou o obsoleto “Código Hays”, que disciplinava o uso do sexo e da violência na tela.

No começo de fevereiro, quando estrear “Psicose”, sobre o processo de realização da obra cult de Alfred Hitchcock, você vai ver como as coisas funcionavam no cinema norte-americano. Há toda uma negociação do mestre do suspense com a censura porque ele precisava mostrar um vaso sanitário, e isso era tão proibido em Hollywood quanto filmar um casal na cama. “Psicose”, o original de Hitchcock, é de 1960. “John & Mary” é de nove anos depois.

Na França, Alain Resnais já fizera “Hiroshima, Meu Amor”, sobre outro casal (Eiji Okada e Emmanuelle Riva), que faz sexo e conversa durante uma noite inteira e só se apresenta na manhã seguinte – no fim do filme. E houve também “A Primeira Noite de Um Homem”, de Mike Nichols, com Dustin Hoffman como Benjamin Braddock, que deu voz a toda uma geração de jovens dos EUA. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

JOHN & MARY

Direção: Peter Yates.

Distribuição: Lume Filmes (R$ 39).