Foi uma coincidência. A pesquisadora Valéria Peixoto, da Academia Brasileira de Música, resolveu homenagear o compositor Ricardo Tacuchian, que presidiu a instituição, com a edição do catálogo de suas obras quando descobriu que Helizete Higino, da Divisão de Música e Arquivo Sonoro da Fundação Biblioteca Nacional, já trabalhava em projeto semelhante. As duas, então, resolveram unir esforços – e passaram a trabalhar no livro Ricardo Tacuchian e Sua Obra, lançado este mês.

Elas contam que o trabalho foi facilitado pela “extrema capacidade de organização” do compositor, que não apenas manteve suas obras catalogadas como escreveu notas de programas que auxiliam o trabalho do intérprete e de quem quiser estudar sua música. O livro, segundo as autoras, tenta abarcar o caráter multidisciplinar da trajetória de Tacuchian, mas também se foca em temas importantes da sua escrita. Em especial, o Sistema-T de composição, que, entre o tonal e o atonal, significou um diálogo particular com o pós-modernismo, uma das marcas do músico.

A evolução – ou transformação – da escrita de Tacuchian também pode ser sentida no disco em que o Quarteto Radamés Gnatalli registrou os quatro quartetos de cordas do compositor. As peças, afinal, foram escritas entre 1963 e 2010, demarcando cada momento de sua trajetória. E o mesmo vale para a pesquisa desenvolvida pelo violonista Humberto Amorim, que resultou no livro Ricardo Tacuchian e o Violão, que será lançado no começo de 2015, e em um DVD com suas obras para o instrumento.

“O que me chamou a atenção foi o modo como Tacuchian se dedicou ao violão ao longo de seus anos como compositor, com uma produção extensa e um concerto para o instrumento que está entre os mais brilhantes já escritos”, conta ele. “Observando essas partituras, temos um olhar privilegiado desse pluralismo sintético, que abarca várias tendências e, em cada uma, oferece uma marca bastante pessoal.”

O livro de Amorim relembra ainda um dado histórico importante: Tacuchian foi responsável, em 1980, pela primeira cátedra universitária de violão no Brasil. “Eu lembro que, quando era estudante, um colega entrou com um violão na universidade e um professor das antigas ficou escandalizado, achando aquilo um absurdo”, conta.