Em um futuro distante, depois do “fim do mundo”, quando a humanidade já passou por diversos ciclos e retorna ao que pode ser considerado seu estágio “inicial”, um grande e antigo baobá – árvore de origem africana – se sobressai na paisagem desértica. Ali, Kizúa, personagem de Raphael Garcia que representa a permanência, espera longamente pela chegada do andejo Izô (interpretado por Flávio Rodrigues), este simbolizando o movimento. O conflito entre esses dois homens de ideais diferentes, relacionamento embasado na reconstituição da memória e do significado dos sentimentos humanos, é o mote do espetáculo Revolver, do Coletivo Negro, que estreia nesta quinta-feira, 3, em (a princípio) curtíssima temporada até domingo, 6, no Espaço Cachuera!, em Perdizes.

continua após a publicidade

Essa fábula de ficção científica é um dos quatro experimentos cênicos que integram o projeto A Concretude Imaterial do Que Somos: Símbolos, Mitologias e Identidades, contemplado pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro de São Paulo, mais um passo na pesquisa do grupo sobre a representação do negro nos palcos e na sociedade.

“O que a gente está fazendo tem uma importância não no sentido de segregar, mas de agregar um valor a mais na nossa visão da sociedade. Nós somos importantes também. Nós estamos aqui para somar, não para excluir ninguém”, comenta Flávio.

Se em Revolver a discussão proposta é sobre a tolerância entre os diferentes, o andar junto e ter a capacidade de ouvir o outro, as produções seguintes, com estreias previstas até o fim do ano e início de 2016, tratam, respectivamente, das questões da corporalidade, do masculino e do feminino, sob a perspectiva do negro.

continua após a publicidade

Assim como nas primeiras pesquisas e montagens do Coletivo Negro, há 8 anos, as manifestações populares afro-brasileiras são as referências para a concepção de Revolver, escrita pelo dramaturgo Rudinei Borges. Para se chegar ao resultado da peça foi fundamental a parceria com a Associação Cultural Cachuera!, que mantém um valioso acervo sobre a cultura popular. A contribuição criativa da dupla de atores também foi estimulada pela diretora Aysha Nascimento. “É um espetáculo cheio de olhares”, diz Aysha, que destaca a presença da DJ Dani Nêga em cena.

Com formação pela Escola Livre de Teatro de Santo André (Aysha e Flávio) e pela Escola de Arte Dramática (EAD) da USP (Raphael), os integrantes do grupo observam uma falta de atenção acadêmica à participação do negro no fazer teatral. “Como a gente pensa a história do teatro brasileiro e não pensa nessas manifestações? Isso é a história do teatro brasileiro também. A congada, o jongo e o cavalo marinho também são a nossa história, que vem antes do teatro moderno do século 20, antes do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia, companhia fundada em 1948)”, pontua Raphael. Aysha ainda destaca a ausência, segundo ela, de estudos aprofundados sobre iniciativas como o Teatro Experimental do Negro (TEN), criado por Abdias do Nascimento, em 1944.

continua após a publicidade

Sem querer se distanciar da militância, Aysha nota que em Revolver, pela primeira vez em um trabalho do coletivo, a palavra negro não é dita. “Quem está em cena é negro, ele não está se eximindo desta condição, mas em nenhum momento eu digo ‘negro’ porque tem um lugar de entendimento da humanidade.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.