No Brasil, a religiosidade de membros de igrejas evangélicas, pentecostais, neopentecostais, e das afro-brasileiras umbanda e candomblé, convive com a religiosidade de membros do catolicismo devocional. O elemento comum das práticas religiosas populares é a busca da justiça para fazer frente àquele tipo de poder que torna seus membros cada vez mais empobrecidos. Não se trata somente de buscar saídas para prosseguirem trabalhando, mas também de elaborar conscientemente aquilo que no seu dia-a-dia não pode ser modificado. Para Chaui (1996) essa elaboração funciona “como pólo de resistência numa sociedade onde a cidadania foi recusada para a maioria e onde a opressão é a regra da existência social das camadas populares”.
A escolha de uma religião para essa busca não ocorre porque as pessoas querem esquecer o que vivem, como se a religião fosse uma droga anestesiante. Pelo contrário, ocorre porque muitas vezes só resta este caminho. Não faz diferença, portanto, aceitar várias crenças mesmo não concordantes entre si, embora isso produza conflito por parte das igrejas oficiais por revelar sua fraqueza de arrebanhar e controlar seus fiéis. Hoje os seguidores resistem, pois organizam em si um sistema próprio de crenças e transgridem a afirmação de que o milagre só se realiza por vias oficiais. Eles fazem seus próprios caminhos. Se para as religiões oficiais purificadas Deus é razão, para as religiões populares ele é vontade.
A esse propósito, afirma Chaui (1996): “o milagre, ao mesmo tempo que reafirma a onipotência da divindade à qual se apela – e que não teria o menor interesse se não fosse capaz de restaurar o verdadeiro curso de suas decisões – manifesta uma relação estritamente pessoal com o suplicante – torna próximo o poder distante, torna visível o invisível, garante que o apelo e o grito foram, finalmente, ouvidos”.
Marx citado por Chaui (1996), afirma que: “a miséria da religião é, ao mesmo tempo, expressão e protesto contra a miséria real. É o lamento da criatura oprimida, coração de um mundo sem coração, alma de uma condição desalmada(…). Assim, a crítica do Paraíso transforma-se em crítica da Terra, a crítica da religião em crítica da lei, a crítica da teologia em crítica política(…). A religião é visão invertida do mundo, mas porque esta sociedade, este Estado são o mundo invertido”.
Essa relação pessoal do suplicante com o suplicado realiza o milagre. Acredita-se para receber graças. A Deus, aos santos, aos orixás e aos exus, pede-se a cura das doenças, o fim das drogas, do alcoolismo, a harmonia, a volta de alguém que desapareceu. Pede-se que as desgraças do cotidiano diminuam, de preferência que terminem. Enfim, pede-se aquele auxílio que não foi recebido nos postos de saúde, mesmo após estar longo tempo nas filas de espera, aquela consulta com o especialista, que talvez nunca venha a ocorrer, aquela alimentação tão necessária, enfim, pede-se aquilo que é fundamental para continuar sobrevivendo. Por isso, contrariamente ao que significa o milagre para o dogma católico oficial, para as religiões populares significa, segundo Brandão citado por Chaui (1996) “(…) a retomada da ordem natural das coisas na vida concreta do fiel, da comunidade ou do mundo, por algum tempo quebrada, aí sim, seja como provação consentida por deuses e santos ao fiel servidor ou justo, seja como efeito da invasão direta das forças do Mal sobre a ordem terrena (…) o milagre é, pois, um acontecimento necessário, acessível, rotineiro e reordenador(…). A rotina do milagre faz com que, em qualquer área confessional do domínio popular, uma grande parte dos momentos de oração pessoal, familiar ou comunitária seja para pedi-lo ou para agradecê-lo”.
Ao contrário do que em geral ocorre nas religiões oficiais, nas quais as pessoas que praticam a religião são mais exigentes com Deus e pedem graças mais caras e supérfluas como comprar o carro do ano, entre os fiéis das religiões populares, o milagre solicitado é o estrito necessário para continuar vivendo, ou seja, a religião anda junto com a saúde, pois o quadro de saúde pública no país deixa muito a desejar. Embora, por meio do Programa de Saúde da Família, lugares distantes cujos habitantes antes não tinham acesso agora já recebam alguma assistência, a necessidade vai muito além do que está sendo oferecido. O indivíduo sente que as dores se espalham por todo o corpo e originam aquilo que se chama dor difusa ou mal-estar generalizado que depende da situação em que vivem, ou seja, com pouca ou nenhuma expectativa de vida.
Como afirma Valla (2002), a resistência popular é desenvolvida no apoio social, que é uma maneira de estar juntos no mesmo espaço físico e, desse modo, atenuar suas dores e sofrimentos crônicos durante a reunião de oração. A prática da religiosidade, portanto, vem se tornando cada vez mais a maneira popular de resistir.
Jorge Antonio de Queiroz e Silva
é especialista em Metodologia do Ensino de História. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.E-mail: queirozhistoria@terra.com.br

