Se você é fã de quadrinhos, admira e coleciona gibis, lembre-se sempre deste nome: Adolfo Aizen. Ele foi o responsável por tudo isso. Era um jornalista baiano (de Juazeiro), radicado no Rio de Janeiro, com uma visão extraordinária e o espírito empreendedor dos grandes homens. Fez muito pela cultura nacional, não apenas por haver povoado a imaginação infantil de gerações de brasileiros, mas, sobretudo, por haver levado ensinamento aos jovens, incentivando o aprendizado da nossa história, tradição, arte e literatura, e semeado o conhecimento em centenas de publicações, por mais de meio século. O Brasil deve muito a Adolfo Aizen e não pode se esquecer disso.

Foi Adolfo Aizen quem trouxe os quadrinhos para o Brasil; foi o primeiro que aqui publicou os mais populares heróis de papel, como Flash Gordon, Tarzan, Príncipe Valente, Mandrake, Pato Donald e Mickey, Super-Homem, Batman, Zorro, Homem-Aranha e tantos e tantos outros; foi o responsável pela quadrinização dos maiores clássicos da literatura brasileira; foi quem primeiro editou a Bíblia, a História do Brasil, e a vida de grandes vultos em quadrinhos; foi ele quem descobriu e projetou jovens artistas e abriu a picada para a vitoriosa caminhada das HQs nacionais.

A grande aventura

Até o início dos anos 30 do século passado, a garotada contava apenas com uma publicação periódica: O Tico-Tico, fundada em 1905 e editada pelo semanário O Malho, cujo forte eram as traduções e adaptações da revista francesa Belles Images ou páginas dominicais de jornais norte-americanos. De resto, o imaginário infanto-juvenil era apenas povoado pelas novelas do rádio ou pelas matinês dos cinemas.

Adolfo Aizen era o redator-chefe de O Malho e de O Tico-Tico. Em 1933, a convite do Comitê de Imprensa do Touring Club do Brasil, viajou aos Estados Unidos. Ali, visitou as redações dos principais jornais. No Daily News, do Grupo Hearst, conheceu o King Features Syndicate, o maior distribuidor de tiras em quadrinhos do mundo e ficou encantado com a novidade. Segundo suas próprias palavras:

– Chegando lá, encontrei Flash Gordon em grande forma e logo me ocorreu a idéia de publicar as suas histórias no Brasil. De volta, procurei o Luís Peixoto e lhe pedi para que me levasse ao João Alberto, dono do jornal A Nação.

Segundo o filho Naumim, Adolfo, na verdade, antes procurara Roberto Marinho, redator-chefe de O Globo, oferendo-lhe sociedade no empreendimento, mas recebeu uma resposta desalentadora:

– Ora, Aizen, isso é história para crianças!

Resultado: em 14 de março de 1934, A Nação trouxe encartado um Suplemento Infantil, editado pelo Grande Consórcio de Suplementos Nacionais, com periodicidade semanal e um monte de defeitos. As duas cores na capa apresentavam chapadas mal cobertas e o vacilo dos primeiros passos era evidente. Entretanto, já o primeiro número estampou capa de J. Carlos (José Carlos de Brito e Cunha, 1884-1950), que viria a ser o maior ilustrador da América Latina. Na última página, Os Exploradores da Atlântida ou As Aventuras de Roberto Sorocaba, de A. Monteiro Filho, considerada a primeira HQ brasileira com a técnica então usada nos EUA.

A garotada adorou e o sucesso foi enorme, apesar das deficiências. Tanto que, a partir do n.º 15, o SI virou Suplemento Juvenil, desligando-se de A Nação para seguir carreira própria. Em 1937, ganhou um “irmãozinho”: Mirim.

O curioso é que isso tudo custou muito pouco a Adolfo Aizen, em termos de direitos autorais. Explica-se: como, até então, nenhum jornal brasileiro mostrara interesse na publicação de historietas em quadrinhos, ainda mais em capítulos, o material ficara abandonado nos escritórios do representante do King Features no Brasil. Este, então, ofereceu-o de brinde a Adolfo, desde que ele passasse a comprar a produção nova. Quer dizer: Aizen não apenas conquistou o direito de publicar no País os melhores quadrinhos norte-americanos, como ainda ganhou de presente o estoque de mais de um ano.

Pelo Suplemento passaram, entre outros, Flash Gordon, Buck Rogers, Brick Bradford, Mandrake, Jim das Selvas, Dick Tracy, Tarzan, Príncipe Valente, Terry e os Piratas, Sobrinhos do Capitão, Reizinho, Popeye, Pinduca e Mutt & Jeff.

Além de J. Carlos e Monteiro Filho, vários foram os desenhistas que se iniciaram no Suplemento e em Mirim: Queiroz, Theo, Santa Rosa, Yantok, Tarsila do Amaral, Antônio Euzébio, Carlos Thiré, Belford, Fernando Dias da Silva e Gutemberg Monteiro.

“O Suplemento Juvenil foi o primeiro marco na história da imprensa de quadrinhos no Brasil, em bases criativas, menos amadorísticas do que O Ju-quinha, O Cômico Infantil e O Tico-Tico” – registraria o jornalista Sérgio Augusto, o primeiro crítico de gibis do país, emendando: “Foi com o aparecimento do Suplemento Juvenil que surgiram os suplementos coloridos dos jornais, as tiras diárias e uma indústria, de cujos méritos destaco dois: a luta contra o analfabetismo e a criação de novas oportunidades no campo jornalístico”.

Futuro império ataca

Estranhamente, em meados de 1939, o King Feature Syndicate deixou de renovar o contrato com Adolfo Aizen, preferindo entregá-lo a O Globo. E os principais personagens do Suplemento Juvenil e de Mirim transferiram-se para O Globo Juvenil e Gibi. Até hoje essa história não foi bem esclarecida. É sabido, porém, que Aizen recebeu uma rasteira de Roberto Marinho. Sabe-se, também, que isso magoou profundamente o editor. Contudo, não foi capaz de afetar-lhe o caráter. Tanto é que ele, como satisfação a seus leitores, fez questão de encerrar a publicação do capítulo de Flash Gordon no Suplemento com o seguinte aviso: A continuação desta história sairá no “Globo Juvenil”.

Naumim Aizen revela, em Literatura em Quadrinhos no Brasil (Nova Fronteira, 2002), que, quando o novo gênero de leitura começou a fazer sucesso, Roberto Marinho propôs a seu pai efetivarem aquela sociedade que antes descartara. Aí foi a vez de Adolfo Aizen recusar a proposta. Marinho, então, teria terminado a conversa com uma advertência:

– Você vai se arrepender!

D?O Lobinho à EBAL

O Suplemento Juvenil e Mirim ainda durariam seis meses, mas a perda dos principais heróis tornaram a situação insustentável. Acresceu o fato de que era tempo de guerra e começou a faltar papel de imprensa. A Adolfo Aizen não restou alternativa senão vender o controle do consórcio para a editora A Noite. A empresa tinha Lobinho e Aizen foi convidado para dirigi-la. Era maio de 1940. Ele acrescentou um “O” ao título da revista, que passou a chamar-se O Lobinho, e reiniciou a numeração.

Em 18 de maio de 1945, em meio à euforia geral pelo término da guerra, Adolfo Aizen viu que estava na hora de ter a sua própria casa e fundou a Editora Brasil-América Ltda., a EBAL, então sediada na Av. Rio Branco, no Centro do Rio. A princípio, tentou mudar de linha e se dedicou à edição de livros; depois, lançou a revista Seleções Coloridas, impressa na Argentina, com os personagens de Walt Disney. Mas o resultado não foi o esperado. Em 1947, voltou definitivamente aos quadrinhos e lançou a primeira revista brasileira com aventuras completas: O Herói, impressa em rotogravura na Imprensa Nacional. Em seguida, vêm Superman, Idílio, Edição Maravilhosa e Epopéia. Em 1953, Aizen edita, em edição de luxo, A Bíblia.

A essa altura, a EBAL já conta com sede e oficinas próprias, no bairro de São Cristóvão, na então Rua Abílio (depois, General Almério de Moura). E novos lançamentos vão se sucedendo: Aí, Mocinho!, Tarzan, Mindinho, Reis do Faroeste, Quem Foi? Zorro, Super X, Pequenina, Batman, Ciência em Quadrinhos, Série Sagrada, Roy Rogers, Popeye, Pinduca, Cinemin…

Em 1957, começa a série Grandes Figuras, com a quadrinização da biografia de brasileiros ilustres, como Machado de Assis, Rondon, Osvaldo Cruz, Santos Dumont, José Bonifácio e outros. Dois anos depois, sai a coleção Biografias em Quadrinhos, focalizando, entre outros, Colombo, Marconi, Maria Curie e Chopin. Paralelamente, edita o primeiro volume de História do Brasil em Quadrinhos, sempre com texto e ilustrações de autores e artistas nacionais.

Houve meses em que a Brasil-América chegou a colocar no mercado cinqüenta revistas diferentes.

Clássicos ilustrados

Mas a maior obra de Adolfo Aizen talvez tenha sido a publicação dos grandes clássicos da literatura mundial e, especialmente, a quadrinização de romances brasileiros. Foram duzentos títulos, alguns com inúmeras reedições, por meio dos quais a criançada tomou conhecimento de José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo, Bernardo Guimarães, José Lins do Rego, Gilberto Freire e Jorge Amado. Pedro Anísio assinou a maioria das adaptações, cabendo a André Le Blanc, José Geraldo, Gutemberg Monteiro, Manuel Victor Filho, Ivan Washt Rodrigues, Aylton Thomaz, Ramón Llampayas, Nico Rocco e Eugênio Colonnese os desenhos.

Ao prefaciar a adaptação de Menino de Engenho, para o centésimo número de Edição Maravilhosa, José Lins do Rego confessou:

“Leio o meu próprio romance (…), com figuras que Le Blanc idealizou o chego a me emocionar como se estivesse num universo alheio à minha criação. Sinto que a história pula das páginas com um vigor extraordinário. A caracterização que o ilustrador impôs à narrativa tem mesmo coração e alma (…)”.

Para a versão de Gabriela, Cravo e Canela, Jorge Amado escreveu:

“Há muita gente que tem preconceitos contra as histórias em quadrinhos e algumas me aconselham a não permitir tal adaptação. (…) Estou plenamente satisfeito com essas adaptações e penso que elas só têm feito aumentar o público de meus livros”.

Ao final de cada edição, Aizen fazia questão de enviar um recado para o leitor:

“Se você gostou, procure ler o próprio livro, adquirindo-o em qualquer livraria. E organize a sua biblioteca – que uma boa biblioteca é sinal de cultura e bom gosto”.

A revista durou até o n.º 200 (dezembro de 1961), com Pedra Bonita, de José Lins do Rego, capa e desenhos de Manuel Victor Filho.

Nosso herói-maior

Estive uma vez na Rua Gen. Almério de Moura, 302/320, o “Reino Encantado das Histórias-em-Quadrinhos”. Adolfo Aizen, em pessoa, recebeu-me com a mesma atenção e carinho com que recebia centenas de caravanas de jovens alunos de escolas cariocas e fluminenses. Era uma pessoa encantadora. Apresentou-me a seus diretores, os filhos Paulo Adolfo e Naumin e Fernando Albagli. E levou-me a conhecer toda a editora, das salas de produção às oficinas e seções de acabamento e expedição, ciceroneado pelo jovem estagiário Otacílio d?Assunção Barros, que viria a se tornar cartunista e editor de quadrinhos, entre eles a edição nacional de Mad.

O velho editor tinha muito orgulho da sua EBAL, que, por mais de três décadas, foi a maior editora do continente a publicar exclusivamente quadrinhos. “Construída com trabalho, amor, abnegação e fé” -como fazia questão de dizer.

Em 1984, a EBAL não renovou o contrato com a DC Comics e intensificou a produção de livros infantis. As HQs completavam 50 anos de publicação no Brasil, mas as vendas não recomendavam novos investimentos no setor por parte da Editora Brasil-América brava de guerra. E os super-heróis foram “sentar praça” na Abril, de São Paulo. Jamais voltariam, porém, a registrar tiragens de mais de 100 mil exemplares, como nas décadas de 50 e 60.

Adolfo Aizen faleceu a 10 de maio de 1991, um mês antes de completar 84 anos. E embora tenha sido agraciado com inúmeros troféus, entre os quais o Prêmio Yellow Kid – Uma Vida Dedicada aos Quadrinhos (Lucca, Itália, 1975), ainda está por receber a homenagem que merece do Brasil.

Resta parodiar o velho mestre: este foi apenas um aperitivo. Se você gostou, leitor, procure conhecer toda a obra de Adolfo Aizen e faça dela um exemplo.

Na próxima semana: Os Grandes Artistas da EBAL