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Presidente do júri do Festival de Veneza se recusa a ir a jantar para Polanski

A presidente do júri da competição do 76º Festival de Veneza, a cineasta argentina Lucrecia Martel (Zama, A Mulher sem Cabeça), fez a linha “sincerona” na coletiva do júri, ao lado de Paolo Baratta, presidente da Bienal de Veneza, que organiza o evento, e o diretor Alberto Barbera. Quando indagada se separava o homem de sua arte, numa referência à presença de Roman Polanski na competição, com o filme J’Accuse, ela disse que não.

Lucrecia Martel consultou pessoas e fez buscas na internet para saber mais sobre o caso de estupro pelo qual ele foi condenado nos Estados Unidos – Polanski fugiu antes da sentença. A cineasta disse que não condena a sua presença no festival, “por possibilitar a discussão”, mas que se vê numa posição incômoda. “Eu não vou participar do jantar de gala em sua homenagem”, afirmou. “Porque eu represento muitas mulheres que estão lutando na Argentina contra esse tipo de problema e não quero estar lá para parabenizá-lo”, completou.

Pouco depois, ela foi indagada sobre outras acusações contra o cineasta, incluindo uma por parte de uma menina de 10 anos. “Imagine a situação difícil de ser uma mulher na presidência deste júri. Se você tive mais informações, por favor, me dê. Creio que o filme merece uma chance. Mas é complicado. O que fazemos? Nós o julgamos? Nós o impedimos de estar no festival? Essas perguntas são pertinentes ao nosso tempo. Sua presença no festival faz com que tenhamos de enfrentar essas questões.”

Barbera, ao contrário, disse separar o homem da arte e achar que o público deve fazer o mesmo. “Muitos grandes artistas cometeram crimes”, afirmou.

Também houve discussão sobre a presença tímida de diretoras na competição – apenas duas entre 21 filmes. “Não acho que um filme dirigido por uma mulher necessariamente vai ser mais sensível do que o de um homem. Mas o cinema não está representando a complexidade da sociedade. É alarmante não só a falta de mulheres, como também de pessoas não brancas e de classes mais baixas”, disse Lucrecia Martel.

Barbera se disse contra a criação de cotas nos festivais. “Mas eu acho que elas são válidas em outras etapas, como na entrada dos cursos de cinema e na seleção de projetos para financiamento. Num festival, o único critério é a qualidade do filme”, disse.

Martel fez uma proposta. “E se o festival, por uns dois anos, selecionasse 50% de filmes de diretores e 50% de filmes de diretoras? Para ver se baixa mesmo a qualidade ou se isso causa um movimento importante?” Barbera reiterou que não achou metade de filmes que valessem a seleção. “Mas as coisas estão mudando. É preciso paciência – e pressão, claro.”

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