É inédito na história de Cannes, e talvez na de qualquer outro festival, que a diretora do filme de abertura – Emmanuelle Bercot, de La Tête Haute – seja premiada como atriz por outro filme, mas é o que pode ocorrer este ano. Emmanuelle é admirável em Mon Roi/Meu Rei, de Maïwenn. Faz uma mulher que, no começo, sofre um acidente numa estação de esqui e, depois, passa o filme tentando se recuperar da ruptura dos ligamentos do joelho – e do efeito devastador que teve, sobre ela, a paixão pelo modelo de homem encarnado por Vincent Cassel, o rei do título.

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Em seu filme sobre a brigada criminal de menores – Polisse -, Maïwenn já trabalhara com Emmanuelle, como atriz e corroteirista. As duas amam as cenas intensas, tratadas em bloco, nas quais a emoção flui e vai ao limite. Emmanuelle e Maïwenn não têm medo de se expor. Nos diálogos, nas cenas de sexo.

Mulheres talvez encontrem um prazer especial nessa auto-exposição que, aos homens, talvez pareça excessiva. Mas é um tema que está em discussão em Cannes. Os filmes ‘de’ mulheres estão ganhando um peso cada vez maior no mercado. O Brasil é citado como exemplo, graças ao sucesso de filmes como Lucy, Fault e 50 Tons de Cinza. O júri de Cannes é ‘masculino’, presidido pelos irmãos Coen. Serão sensíveis ao psicodrama filmado de Maïwenn? O curioso é que, no dia anterior, passara o filme que arrebatou o público na sessão de imprensa. Carol, de Todd Haynes, possui elementos que o aproximam de outro trabalho do diretor, Longe do Paraíso, com Julianne Moore que descobre a homossexualidade do marido e, ao invés de silenciar, como se espera de uma boa dona de casa no sonho americano dos anos 1950, tem um affair com o jardineiro negro. Cate Blanchett é agora casada (com um ricaço), tem uma filha, mas desafia tudo e todos com o lesbianismo que a aproxima da personagem de Rooney Mara.

O filme é lindamente fotografado, cenografia e figurinos captam o look da época, mas as informações não chegam a criar um retrato contundente da América sob o macarthismo. E o filme é frio, até, ou principalmente, nas cenas de sexo. Todd Haynes é pudico ali onde Maïwenn é despudorada com seu elenco. Até onde deve ir a emoção na tela? Gus Van Sant está sendo massacrado pelo que os críticos consideram uma deplorável filiação ao melodrama em The Sea of Trees.

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The Hollywood Reporter escreveu que o aspecto mais desagradável do filme é quebrar a vitoriosa série de grandes atuações que catapultou Matthew McConaughey a um outro estágio de sua carreira. É tudo uma questão de ponto de vista. Como McConaughey não emagreceu até o ponto de ficar cadavérico para viver o aidético de Clube de Compras Dallas, ele não pode estar tão bom.

Mas a verdade é que está, tornando palpáveis a culpa e o desespero desse marido devastado pela morte da mulher e que escolhe uma floresta no Japão como o lugar perfeito para morrer. De alguma forma, Gus Van Sant fez o seu Floresta dos Lamentos, sem se reportar necessariamente ao grande filme de Naomi Kawase. Premiadíssimo aqui em Cannes – Elefante teve a Palma de Ouro, lembram? -, ele foi vaiado na sessão de imprensa. Isso não parece ter abalado McConaughey, que considerou legítimo que a plateia se manifeste por meio de vaias como de aplausos. Mas ele defendeu seu diretor. Disse que Ó Mar de Árvores tornou-se caro, no sentido de querido, essencial, para quantos o fizeram. Esse tema do luto, como se lida com ele, também está no novo Nanni Moretti.

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Ele montava Habemus Papam quando sua mãe morreu. Ela era professora e, no funeral, ao reencontrar muitos de seus ex-alunos, Moretti deu-se conta de que lhe relatavam aspectos para ele inéditos da mulher que lhe dera a vida. Veio a vontade de refletir sobre a morte e o cinema, do ângulo de uma mulher. E ele criou essa personagem de diretora em crise. A velha mãe está morrendo, a filha adolescente a confronta, e nesse mundo de incertezas ela só tem certeza de uma coisa. Seu coração não está no documentário que faz, sobre operários face à nova administração da fábrica. Margherita Buy faz a diretora, John Turturro é o empresário e Moretti faz o irmão que largava tudo para cuidar da mãe.

Uma mãe já morria em La Messa è Fioniota, depois houve a morte traumática de O Quarto do Filho e agora Moretti encara o tema de forma mais serena. “A morte do filho é antinatural, a dos pais, por mais que sinta, faz parete da ordem das coisas”, explica. É o filme mais bem cotado do festival, até aqui. Sete Palmas de Ouro, num total possível de 15. Mas não é grande. Bom, sim.