O poeta, tradutor e ensaísta Jerome Rothenberg, nascido em 1931, em Nova Iorque, participou do Curitiba Literária, festival de literatura organizado pela Prefeitura em parceria com o Sesc Paraná. Na terça-feira, Jerome lotou a tenda-auditório da Praça Osório, onde falou sobre a etnopoesia, gênero que criou em 1950.
A linha de trabalho de Jerome incorpora cânticos, lendas e narrativas indígenas norte-americanas e de outras nacionalidades, bem como outras manifestações primitivas, explorando, por exemplo, fontes ancestrais do mundo dos judeus, ciganos, ladrões e loucos. Rothenberg publicou mais de 70 livros e já traduziu para o inglês autores como Pablo Picasso e Frederico Garcia Lorca. Ele pode ser considerado também um dos últimos integrantes da geração Beat – movimento literário surgido nos anos 1950, nos Estados Unidos, que propunha uma nova maneira de pensar e de viver fora dos padrões da sociedade norte-americana.
Aos 76 anos, ele ainda não se considera um homem totalmente livre, como propunha sua juventude. ?Tenho que conviver com as regras estabelecidas pela sociedade?. Ele falou com exclusividade ao Almanaque:
– O senhor é um pesquisador da oralidade poética em tribos de índios norte-americanas e também mexicanas, em especial dos rituais de cura. Estes povos têm noção de que o que eles produzem na oralidade é poesia ou isso para eles não tem a menor importância?
Rothenberg – Dizer que sou o único que viu ou vê poesia nos rituais destes povos acho que seria muita pretensão. Acho que eles sabem que fazem poesia em seus rituais, mas isso tem um significado muito particular para eles e que certamente não é o mesmo para nós, que estamos lá como ?olheiros?. Sempre digo que nós estamos sempre buscando neles novas formas, novas linguagens para enriquecer, incrementar a nossa linguagem.
– O senhor pode ser considerado um emissário, uma espécie de porta-voz dessa oralidade, dessas manifestações para a grande mídia. Seria a ferramenta que lhes faltava para tornar conhecida essa poesia produzida por meio dessas manifestações culturais de outros povos?
Rothenberg – De forma alguma, nem eu nem eles queremos colocá-los na grande mídia. Na verdade acho que até quero, mas eles estão pouco ligando para isso. Não querem ser conhecidos nem famosos além de sua tribo. Querem ser famosos sim, mas somente entre sua gente. Mas acredito que também não são avessos à universalização, à divulgação de suas culturas. Só sei que para eles isso não é importante. Para nós, é claro, tudo o que eles produzem é muito importante porque acho que enriquece o nosso jeito de escrever poesia. O que para muitos (para as pessoas fora das tribos) pode parecer singelo, muitas vezes é considerado por eles, dentro da comunidade deles, algo tão significante que poderia dizer que entre eles é ?algo sofisticado?. Sofisticado porque nos rituais é sempre um líder que se expressa e que diz as ?falas?. São essas falas e esses signos que eu pesquiso e é isso que enriquece a minha poesia.
– O senhor tem interesse em pesquisar também as culturas e a oralidade dos brasileiros, em especial dos índios brasileiros?
Rothenberg – Interesse claro que tenho, mas acho que vou deixar para a próxima geração. Acho que não vai ser desta vez, nesta vida (risos). Sinto que tenho alguns entraves, como o idioma por exemplo. Deveria há muito tempo ter aprendido português porque isso certamente facilitaria um trabalho com povos brasileiros, em especial nas comunidades indígenas que sei que têm uma diversidade cultural muito interessante, muito rica. Esta é a terceira vez que venho para o Brasil e a segunda vez que estou em Curitiba. Há três anos vim participar de um painel literário no Teatro da Pólvora Redonda (Teatro do Paiol).
– Que poetas brasileiros, na sua opinião, podem ser considerados mais próximos ao seu estilo de escrever.
Rothenberg – Acho que aqueles que são chamados por aqui de ?poetas malditos?, como Haroldo Campos, Roberto Piva, Cláudio Wille, Jorge de Lima, e os concretistas Oswaldo de Andrade, Sousândrade (Joaquim de Sousa Andrade) e Décio Pignatari. Este, aliás, vive em Curitiba. Eu também me considero um poeta maldito, sou marginal assumido.
– Na era da internet o senhor se preocupa com o futuro do livro?
Rothenberg – O futuro do livro não me preocupa, mas me preocupa muito, o que vai dentro do livro. Sinto que meus esforços são justificados se sou capaz de abordar um novo tópico ou um velho tópico de novas maneiras. Também espero que as antologias, os grandes livros que montei, sejam lidos juntamente com meus poemas e traduções (algumas contidas nas antologias) como um todo, um projeto unificado. Acima de tudo, gostaria de pensar nelas como um presente de outros que viveram – muito mais do que eu – uma vida de poesia.
Principais obras de Jerome Rothenberg
– Technicians of the Sacred (Técnicas do Sagrado) – explora a poesia oral e suas profundas tradições culturais numa escala global;
– Shaking the Pumpkin (Sacudindo a Abóbora) – poesias tradicionais dos índios norte-americanos;
– America a Prophecy (América uma Profecia) (com George Quasha) – uma nova leitura da poesia norte-americana da era pré-colombiana até o presente;
– Revolution of the World (Revolução do Mundo) – uma nova perspectiva da poesia americana experimental entre duas guerras mundiais;
– A Big Jewish Book (Um Grande Livro Judeu, mais tarde conhecido como Exiled in the World, Exilado no Mundo) com o título secundário: Poemas & outras visões dos judeus da era tribal até o presente;
– Symposium of the Whole (Simpósio do Todo), com Diane Rothenberg – uma coleção de textos que passou a chamar de etnopoética, de Vico a María Sabina e Robert Duncan;
– Poems for the Millennium (Poemas para o Milênio – dois volumes, com Pierre Joris) – uma antologia global da vanguarda modernista e pós-modernista;
– A Book of the Book (Um Livro sobre o Livro), com Steve Clay – uma variedade de ensaios e obras que exploram a poética e a etnopoética do livro e da escrita.
– Etnopoesia do Milênio (em Português) – organizado por Sergio Cohn e traduzido por Luci Collin, professora de Literatura da UFPR.
Etnopoética
A etnopoética, muito mais do que um simples registro de expressões orais tradicionais, é uma proposta de ampliação do que consideramos como poesia, ainda muito centrada na tradição greco-romana. Ao incluir no cânone ocidental a poesia de nativos americanos, africanos, orientais e ciganos, ao lado de nomes como William Blake e Arthur Rimbaud, a etnopoética permite que se renove a nossa própria expressão, num movimento que retoma o melhor das vanguardas. Esta antologia de ensaios de Jerome Rothenberg, idealizador da etnopoética ainda na década de 1960, é a maior já realizada no mundo, e traz uma reflexão atuante e inovadora sobre a poesia tradicional e contemporânea.
Sobre o livro
Etnopoesia do milênio foi organizado por Sergio Cohn e traduzido por Luci Collin. A capa foi elaborada pela artista plástica Monica Carvalho, com os mesmos motivos naturais do restante da coleção Beat. Os textos de Etnopoesia no milênio datam de 1966 a 2000. São ensaios sobre o fazer etnopoético e poemas inspirados nesta experiência. No final da edição consta o original em inglês dos poemas além de uma entrevista e um perfil de Rothenberg.
Trecho do livro
De modo crescente, o modelo, o protótipo do poeta se tornou o ?xamã?: o solitário e inspirado funcionário religioso do paleolítico tardio. Em parte, isto se deve ao nosso próprio envolvimento com o tipo de performance solitária e superior, que há pouco descrevi. Mas também há um segundo lado disto: o visionário e extático, e talvez um terceiro: o comunal. Não me concentrei nestes dois últimos (embora eles sejam, de alguns modos, o verdadeiro cerne da questão), mas tentarei focalizar o modo do xamã (proto-poeta) agir/falar/cantar: sua performance. Num sentido mais profundo, usualmente até mesmo mais confuso, o que temos aqui é a busca de uma base primitiva: um desejo de ignorar uma civilização que se tornou problemática retornar, brevemente, com freqüência por procuração, às origens de nossa humanidade. Voltando no tempo continuamos encontrando diversidade e ainda, talvez porque estejamos analisando isto do lado errado, o quadro que emerge é de uma cultura intertribal e universal (e, por trás disto, uma poética) que tem várias características discerníveis e definíveis.
Geração Beat
Estar em movimento. Eis o principal objetivo da geração Beat, grupo de jovens intelectuais americanos que, em meados dos anos 50, cansados da monotonia da vida ordenada e da idolatria à vida suburbana na América do pós-guerra, resolveram, regados a jazz, drogas, sexo livre e pé-na-estrada, fazer sua própria revolução cultural através da literatura.
O termo Beat, usado para classificar a nova geração, é de origem controversa. Jack Kerouac – principal escritor do movimento – queria que o termo fosse uma abreviação de beatitude (mesmo significado em português), enquanto outros, principalmente os críticos e estudiosos, atribuíram tal denominação à influência direta do jazz, principal fonte de gírias e novos termos da contracultura da época. Do soma do radical beat com o sufixo do satélite russo Sputnik, que havia sido mandado ao espaço em 1957, surge a palavra beatnik, usada para designar dali em diante todos os seguidores do movimento.


