Personagem de Caco Ciocler em JK é um poço de sentimentos díspares

Hoje, Caco Ciocler nem de longe lembra mais o tímido Ed de América. De barba feita e bigode cada dia mais branco com o envelhecimento de seu personagem Leonardo, em JK, o ator mostra o lado mais cínico e oportunista do político. Para essa composição, que começou apenas três semanas antes de iniciar as gravações da minissérie de Maria Adelaide Amaral, Caco nem precisou buscar referências na politicagem dos ?habitués? de Brasília. ?Bastou olhar em volta. Ele é um tipo comum. Não é um político cafajeste, mas um interesseiro que viu na política uma forma de se dar bem?, critica. 

O ator paulistano, que estreou na tevê em O Rei do Gado, há exatos 10 anos, assume que também nunca havia vivido um personagem com uma personalidade tão dúbia. Ao mesmo tempo em que Leonardo atravessa várias décadas da trama apaixonado por Salomé, de Deborah Evelyn, decide atacar ferozmente Juscelino, o homem que salvou sua vida e que o apoiou na juventude. ?Mas ele passa por várias crises de consciência e percebe isso quando os filhos mostram que sentem vergonha dele?, avalia.

P – O Leonardo não tem escrúpulos com a política e nem com as mulheres. Isso faz você imprimir alguma forma de vilania nele?

R – Um pouco. Ele é o resumo de um tipo de brasileiro que surgiu naquela época, que são os oportunistas. São caras que não têm ideologias partidárias e só querem se dar bem. Ele resume esse tipo de gente, que vai onde está o poder. Isso me irrita. É como se fosse um barco. Muitos remam ao contrário para o barco não ir para a frente, mas para ele quebrar e dizerem dos governantes: ?Tá vendo? Ele não sabia governar!?. Dane-se os interesses coletivos. Isso para eles não importa.

P – O fato dos personagens ficcionais contracenarem com outros verídicos atrapalha a compreensão do público desse período histórico?

R – Com certeza. A minissérie tem muita informação. Em cada capítulo acontecem coisas demais, tudo é muito rápido. Ela é provocadora para o público que se interessa por História. São muitos nomes e referências. Isso é muito complexo. Num dia o Getúlio se mata, no outro JK assume, no outro Brasília já está sendo construída. Acho que é um esboço, um apanhado geral do que foi para que desperte o interesse das pessoas em ir atrás das informações. Não dá para ver aquilo e achar que tudo é real. Quase tudo é romanceado e entremeado com tórridos relacionamentos que fazem as costuras.

P – O Leonardo, assim como a Salomé, atravessa toda a trama. Como tem sido mostrar o envelhecimento e as transformações dessa relação tão conturbada?

R – Acho uma delícia fazer personagens mulherengos (risos). Mas é difícil acreditar que uma pessoa cínica como ele possa realmente ter esse amor verdadeiro por alguém. A Maria Adelaide sempre nos pede muita verdade nesse amor, mas discuto muito que tipo de amor é esse. Se ele fosse capaz de ter um amor puro, seria outro tipo de pessoa. Mas ele passa por diversas transformações, se casa com uma mulher por interesse, se separa, se desespera quando percebe o desamor dos filhos. Ele vive numa constante angústia, difícil de fazer. Às vezes são quatro mudanças emocionais numa cena de meia página, com choro, tango, risos.

P – De que forma aprender a dançar tango influenciou nessa composição?

R – Me deu a postura necessária, esse lado sedutor. Fiz seis aulas com o Jayme Arôxa, que me mostrou o lado teatral do tango. Ensinou que alguns passos de grande efeito podem dar a impressão de que eu danço muito. Me influenciou no olhar, na personalidade dele.

P – O seu contrato com a emissora vai até 2008. Você já teve um vínculo tão longo de trabalho?

R – (risos). Tive. Fiz O Rei do Gado em 1995, depois um Você Decide em 1996. Com isso, o Herval Rossano decidiu me contratar por três anos. Mas foi muito ruim. Ninguém sabia que eu era contratado e não me chamavam para nada. Foi a época que menos trabalhei. Quando o contrato acabou, eu comecei a trabalhar. (risos). 

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