d65.jpgConheço inúmeras definições de consciência, algumas verdadeiramente brilhantes, outras simplesmente expressivas. Aliás, é minha intenção precípua dar a conhecer, ao leitor que me dá a honra de ler este artigo, algumas dessas definições lapidares.

Começo por afirmar que foi o advento da consciência, a princípio uma pequenina chama bruxuleante, que acabou por transformar verdadeiramente o Homo sapiens, animal racional, em Homem ? com maiúscula. Animado, enfim, da sua intrínseca humanidade.

Ouso, inclusive, dar a minha própria definição de consciência, na esperança, sempre problemática, de que ela já não tenha sido equacionada por alguém, em qualquer tempo ou em algum lugar. Se isso acontecer, só posso afirmar, como costuma dizer alguém, que eu não sabia de nada… Aí vai, pois, a minha definição privativa de consciência e que, como tal, prescinde das aspas exigidas pelas citações alheias: Trata-se da impressão digital de Deus tatuada na epiderme da alma do ser humano.

Dito isso, iniciarei o meu prometido périplo conceitual. Naturalmente, tomarei como ponto de partida os gregos e os romanos da Antigüidade Clássica. Dou a palavra, ?ab initio?, a Sócrates, o Pai da Filosofia. O que dizia o mestre de Platão e marido de Xantipa? Isto: ?Poderá viver sem paixões quem viver bem; isto é, quem viver com a consciência tranqüila?. Já Epicteto, escravo-filósofo, sentenciava: ?Quando, de noite, estiveres sozinho em tua casa, com as portas bem trancadas e a luz apagada, não penses que estás só ? está contigo a tua consciência?. O rival latino do grego Demóstenes, na arte da oratória, o romano Cícero, afirmava: ?Em todo o decurso da vida, ninguém deve afastar-se uma unha sequer da sua consciência, para não extraviar-se?. Por seu turno, o estóico Sêneca enfatizava que ?a consciência chicoteia os maus atos?, enquanto Quintiliano dizia que ?a consciência vale por cem testemunhas?. Mas é ainda o mestre das Catilinárias que sustentava com eloqüência: ?Para mim, vale mais o que diz a minha consciência, silenciosamente, do que todo o clamor vão da opinião pública?.

Não podia faltar aqui a palavra do Bispo de Hipona, santo Agostinho. O que dizia o autor das Confissões e de A cidade de Deus? Isto: ?Quando o homem ouve a voz da razão, escuta a ciência; quando consulta a emoção e o sentimento, descobre a arte; quando interpela a consciência, escuta a voz de Deus?. Por sua vez, são Tomás de Kempis, na sua Imitação de Cristo, ensinava: ?A glória do bom é o testemunho da consciência. Cuida de ter uma boa consciência e terás uma eterna alegria?.

Shakespeare, um dos poucos homens que fizeram jus ao título de gênio, dizia, numa das suas peças admiráveis: ?A consciência é a voz da alma, e fala mais de mil línguas?. Já o grande luso-brasileiro, o padre Antônio Vieira, ?Imperador da Língua Portuguesa? na opinião insuspeita de Fernando Pessoa, clamava, com a sua voz de bronze, num dos seus sermões: ?Melhor é perder o ofício e a vida, do que reter o ofício e perder a consciência?. Quer isso dizer que, para o gênio da parenética, da oratória sacra, a consciência é mais valiosa do que a própria vida.

 E o que dizia o também grande Jean Jacques Rousseau, o mestre do Contrato Social, do Emílio e da Nova Heloísa? Isto: ?Há no fundo das almas um princípio inato de justiça e virtude, com o qual nós julgamos as nossas ações e as dos outros. A esse princípio damos nós o nome de consciência?. Benjamim Franklin, a um só tempo didático e pragmático, pontificava: ?Se queres ter sonhos agradáveis procura deitar-te com a consciência inteiramente em paz?.

Isso me faz lembrar de um provérbio que o meu avô, no território mágico da infância ultramarina, por mais de uma vez me disse: ?Uma consciência tranqüila é um travesseiro feito de penas de ganso. Propicia o melhor dos sonos?.

E o que escrevia o maior dos filósofos alemães, o imenso Imanuel Kant? Isto: ?Há duas coisas que me infundem um profundo respeito: o céu estrelado sobre a minha cabeça e a consciência moral dentro de mim?. O nosso Humberto de Campos, por seu turno, fez uma colocação extremamente feliz: ?É preferível afrontar o mundo para servir à sua consciência, do que afrontar a consciência para ser agradável ao mundo?. Admirável aforismo, esse.

Para concluir, darei a palavra a dois poetas.

Guerra Junqueiro, na textualidade cantante de um dos poemas de A velhice do Padre Eterno, escrevia:

O espia que Deus pôs

dentro de cada um de nós,

a consciência.

E o poeta-filósofo, às vezes metafísico, que se chamou Antero de Quental, cantou, num daqueles sonetos que deslumbraram Unamuno:

A idéia, o Sumo Bem, o verbo, a Essência,

só se mostram aos homens e às nações

no Céu incorruptível da Consciência.

Concluindo, ouso ?perpetrar? mais um aforismo de minha lavra: Poderemos iludir a muitos durante algum tempo, mas não conseguiremos iludir a nós mesmos por um instante sequer, pois a consciência não deixa.

E fico por aqui. A paciência do leitor tem limites que é bom não ultrapassar.