O Teatro Positivo Pequeno Auditório recebe hoje, às 19 horas, uma parte do projeto Itaúbrasil, que em sua primeira edição homenageia o cinqüentenário da Bossa Nova. Em cena a cantora Miúcha acompanhada pelo Quarteto Bossa – formado pelo maestro Leandro Braga (piano), João Lyra (violão), Jamil Joanes (contrabaixo) e Ricardo Costa (bateria) – vai apresentar pérolas como Pela luz dos olhos teus, Corcovado, Eu sei que vou te amar, Vai levando, Samba do avião, Fotografia, entre outros sucessos compostos pela Santíssima Trindade da bossa: João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Dividindo o palco com a cantora o grupo Os Cariocas faz uma participação especial cantando seis clássicos do gênero musical brasileiro com maior projeção internacional.

De pé quebrado, mas sem perder o bom humor, Miúcha concedeu uma entrevista exclusiva por telefone para O Estado do Paraná – e contou um pouco sobre essa turnê nacional que, depois de percorrer seis cidades, chega à sua penúltima etapa hoje em Curitiba e encerra na próxima terça-feira em Porto Alegre. Ela começa a conversa dizendo que a bossa nova é a música de uma época quando as pessoas achavam que a vida era mais simples, suave e que é sempre bom romantizar em cima desse período. “A música brasileira tem vindo num processo de empobrecimento muito grande que é bom beber de um negócio legal, de uma música que transpôs todas as fronteiras musicais do Brasil num grau de sofisticação espantoso. Isso levanta a auto-estima da gente”, considera a cantora.

Durante a turnê do projeto Itaúbrasil ela divide suas apresentações com Os Cariocas. O grupo tem como principal característica o seu moderno sistema de distribuição de vozes, que é inédito em conjuntos brasileiros e constitui sua grande personalidade. Atualmente, o grupo é formado por Severino Filho (arranjador, pianista e primeira voz, é o remanescente das primeiras formações do grupo), Eloi Vicente (violonista, quarta voz e solos vocais), Neil Teixeira (baixista e terceira voz) e Hernane Castro (baterista e segunda voz).

Miúcha lembra que esse encontro remete a uma coincidência histórica curiosa. “O Tom e o Vinicius, embora parceiros a vida inteira, só se apresentaram em temporada duas vezes. A primeira foi no famoso show do Bon Gourmet com João Gilberto e Os Cariocas. A segunda vez foi no show do Canecão, em 77, comigo e com o Toquinho. Então está sendo muito bom estar ao lado d’Os Cariocas e a gente homenagear essas pessoas.” Para a cantora o quarteto que traz os arranjos do Ismael Neto continua soando moderno. “Hoje, da formação original, só tem o Severino que está com 80 anos e faz um falsete que eu fico besta. Mas é comovente ouvir Os Cariocas com arranjos supersofisticados que têm uma qualidade muito grande e abre um horizonte musical quando se ouve.”

Sobre a sua apresentação, Miúcha não faz segredos e pretende mostrar ao público o repertório de seus mais recentes discos. O primeiro, Outros sonhos (Biscoito Fino), que é dedicado ao Tom, Vinicius e o irmão Chico Buarque, que são os três compositores que ela mais gravou. O segundo é uma coletânea de algumas gravações antigas que ela fez com Tom, Vinicius e João Gilberto.

Incluindo faixas do show do Canecão, dos discos com Stan Getz e das gravações com o Tom. “Esse show para mim é uma homenagem aos compositores, parceiros e amigos de vida e companheiros de música e que me dá muito prazer de cantar. Foi uma convivência muito enriquecedora. Essa grandeza que eles tinham, era uma coisa mais lúdica e feliz, como a respiração”, compara.

Apesar de ter convivido com grandes nomes da bossa nova, Miúcha não acompanhou de perto a gênese do movimento que acontecia no Rio de Janeiro na virada dos anos 60s. Nesse primeiro momento ela morava em São Pau,lo e depois se mudou para a Paris. Ela lembra que a presença constante de Vinicius e Moraes (grande amigo de seu pai) a mantinha informada do que estava acontecendo.

“Depois, mais tarde, eu me casei com João Gilberto. Em seguida tive um grande convívio com Tom Jobim. Então essa estética da bossa nova eu absorvi bem no fundo por uma relação muito íntima com essas pessoas. Mas, no começo, nunca fui da turma da Bossa Nova”, confessa.

Isso no entanto não impede Miúcha de lembrar curiosidades sobre algumas canções que ao longo do tempo se tornaram verdadeiros clássicos da música brasileira. Um exemplo é a valsa Pela luz dos olhos teus que foi imortalizada num dueto dela com Tom Jobim. “Essa música todo mundo acha que é uma parceria do Tom e do Vinicius. Na verdade a canção tem letra e música do Vinicius.

Inicialmente ela era um samba e o Tom foi mexendo na música até descobrir que tinha uma valsa embutida lá dentro. E deu a forma que ela ficou conhecida na gravação da gente.”

Depois de passar por seis cidades, ao balanço desta comemoração tem saldo positivo. Miúcha conta que por onde passou o show foi bem acolhido. “Está sendo tão alegre o entrosamento de todo mundo. Está muito bonito mesmo. E o público recebe muito bem. Cada lugar é uma reação diferente”, avalia. Para a cantora, além de interpretar ela diz que gosta de contar as histórias e de falar dos compositores que ela conviveu. “É claro que você cantar uma música de quem você conviveu muito você tem outras leituras e dimensões de entendimento. Para mim eles foram pessoas muitos especiais, naturais, com grande senso de humor e sem pretensão de nada. Acho que foi isso que deu a grandeza da música deles. E que reflete na música brasileira até hoje”, finaliza.

Serviço

Projeto Itaúbrasil – show com Miúcha e os Cariocas.
Hoje, às 19 horas no Teatro Positivo Pequeno Auditório (Rua Prof. Pedro Viriato Parigot de Souza, 5300 – Universidade Positivo). Ingressos: R$ 80 (platéia alta) e R$60 (platéia baixa) – à venda nas bilheterias do teatro, quiosques Disk Ingressos do Shopping Mueller e Shopping Curitiba, pelo telefone e pela internet. Taxa de conveniência R$ 3. Desconto de 50% para todas as categorias previstas em lei. Informações: (41) 3315.0808.