A jornalista Marília Gabriela
já entrevistou o líder
palestino Yasser Arafat.

A jornalista Marília Gabriela costuma dizer que adora anos pares. Foi neles que teve os dois filhos, Cristiano e Theodoro, e conheceu grandes amores, como o ator Reynaldo Gianecchini. Este ano, tem outro bom motivo para festejar: 35 anos de carreira. Desde agosto, passou a ser também produtora independente. “Tenho sempre de ter algo que me faça sentir viva, correndo riscos. Essa é uma característica do jornalista, correr riscos, sem estar necessariamente cobrindo uma guerra do outro lado do mundo”, pondera.

Dona de uma imponente voz grave e de expressivos olhos azuis, ela admite, bem-humorada, que possui um certo ar de “Catarina da Rússia”. Um analista já arriscou dizer que, por ter 1,80 metro, as pessoas já se sentem intimidadas só por terem de olhá-la de baixo para cima. Já uma astróloga explicou que o jeito impositivo é conseqüência de “um Plutão na primeira casa”. “Sou impulsiva, grandalhona, quase monstruosa. Mas, para sair do interior e chegar na cidade grande, devo ter caprichado na postura agressiva, quase que por mecanismo de defesa”, arrisca.

Ao longo da carreira, a campineira de 55 anos já fez de tudo muito. A exemplo da jornalista italiana Oriana Fal-laci, objeto de admiração na juventude, Marília já entrevistou grandes estadistas, como Yasser Arafat, Shimon Peres e Fidel Castro. Cobriu importantes datas históricas, como a morte de Perón e a ascensão da viúva dele, Isabelita, na Argentina. Irrequieta, se prepara agora para estrear como atriz de novelas, numa participação especial em Dinastia, a próxima trama das 20h50 da Globo, de Aguinaldo Silva.

Ao encarar o desafio de virar co-produtora do De Frente com Gabi, a jornalista confessa que, inicialmente teve medo. “É muito confortável ser empregada de alguém: você vai lá, cumpre o seu papel e, depois, recebe no fim do mês”, disse. “Achava que não cumpriria com as minhas obrigações, mas me uni a duas produtoras formidáveis: a Paula Cavalcante, que também trabalhava no SBT, e a Ana Sardinha, que já tinha a própria produtora. No segundo programa, ele já se pagou. Ainda não ganho o que ganhava como contratada, mas vou chegar lá.”

Para Marília Gabriela, TV Mulher foi o programa que lhe deu notoriedade nacional. “Eu era uma mulher representativa num momento em que as mulheres estavam tentando ser bem-representadas”, lembra. “Fomos capa do The New York Times, a Marta Suplicy e eu, em dia de reeleição de Ronald Reagan.”

Gabi achou “um inferno” mediar os debates entre os candidatos à Presidência, em 1989. “Mas foi uma maravilha ter participado daquele inferno”, disse. “Eu saía de lá e reclamava: ?Não quero mais apresentar essa porcaria, esses homens são uns mal-educados, não ganho para isso…? E, de repente, recebo telegrama do ACM, dizendo que votaria em mim para presidente se eu me candidatasse. Mas a ficha não caiu. Não passava pela minha cabeça que eu fazia parte de um importante momento histórico do País.”

A experiente jornalista confessa que, até hoje, às vezes, fica nervosa. “Quando não domino um assunto e tenho de fazer uma entrevista muito específica, por exemplo, do tipo economia, ainda fico nervosa”, admite. “Quando comecei como repórter de rua eu tremia em todas as reportagens, até o dia em que eu encontrei um político, que tremia mais do que eu. Aí, pensei: ?A lógica é essa! Quem deve tremer é o entrevistado?.” Segundo ela, normalmente os entrevistados se sentem intimidados. “É bom ter um programa de uma hora, porque os entrevistados vão se soltando aos poucos”, diz.

Para ela, o bom entrevistado é o destemido. “Coragem é a maior qualidade que um ser humano pode ter”, diz. “Aprendi com o Ulysses Guimarães.” Já o pior é o vaidoso, que sempre procura parecer melhor do que é. “Está se enganando, me enganando e, pior, enganando o público”, sentencia.

Marília atribui sua credibilidade à segurança e à generosidade com o entrevistado. “No começo da carreira, você acha que tem sempre de arrancar alguma coisa inédita, bombástica”, conta. “Depois, descobre que não é por aí. Uma bela informação você não arranca, você conquista.”

Experiência

Ao longo da carreira, Marília Gabriela já contabiliza mais de 10 mil entrevistas. Diz não saber o que faria da vida se não fosse jornalista. Foi justamente isso o que ela disse para o então diretor de jornalismo da Globo, Paulo Mário Mansur, em 1969, quando procurou emprego na emissora. Logo no primeiro dia de trabalho, uma repórter faltou e lá foi a estagiária Marília Gabriela Bastos de Toledo fazer sua primeira reportagem: a suposta troca de um Stradivarius por uma galinha. Não demorou para Marília assumir outras funções, como apresentadora e repórter especial.

Ainda na Globo, Marília fez história ao apresentar, nos anos 80, o TV Mulher, ao lado da sexóloga Marta Suplicy, e do cartunista Henfil, falecido em 1988. Foi também correspondente na Europa por seis meses. De volta à terra natal, transferiu-se para a Band, onde se tornou mediadora de debates, até as eleições presidenciais de 1989. À frente do Cara a Cara, entrevistou personalidades nacionais e internacionais, como Pelé e Luciano Pavarotti.

A década de 90 foi a mais instável na carreira de Marília Gabriela. Depois que saiu da Band em 95, passou pela CNT, SBT e Rede TV!. Na CNT, apresentou um programa de auditório que não durou um ano sequer. “Descobri que sou malcriada para isso. Não suporto gente conversando enquanto entrevisto”, reclama. Enveredou também pela tevê por assinatura. Longe de reclamar de cansaço, se diz realizada por não dispor de tempo livre. Se dispusesse, entraria em parafuso. “Tenho de ter todos os dias uma história para contar”, explica.

Talento versátil

Foi de Gerald Thomas a idéia de Marília Gabriela virar atriz. Em 2000, ele escreveu o monólogo Esperando Beckett, inspirado em textos do dramaturgo irlandês, e convidou a jornalista para encená-lo. “Não há nada melhor que um monólogo para quem está começando. Assim, não corro o risco de atrapalhar ninguém”, brincou, por ocasião da estréia. Dois anos depois, Marília voltou aos palcos, em companhia do marido, Reynaldo Gianecchini, em A Peça sobre o Bebê, de Edward Albee. Ainda este ano, ela estréia um espetáculo sob direção do experiente Aderbal Freire Filho. Em 2005, ela planeja exibir seu talento de contralto num musical. Em 35 anos de carreira, Marília já gravou três CDs, lançou um livro de entrevistas e participou de quatro filmes.