d1b.jpgO escritor Paulo Coelho concedeu entrevista esta semana sobre o seu último lançamento literário Bruxa de Portobello. A obra é tratada de forma diferente dos outros livros. A história é contada por pessoas que conviveram com Athena, o personagem principal da trama. O autor diz que este é um desafio e que também está em busca do entendimento de sua alma. Não pode agradar ou desagradar a si mesmo e nem ter medo do que está pensando. Paulo Coelho já vendeu 75 milhões de livros no mundo.

P: Por que você escolheu pessoas contando a história de Athena ao invés de fazer um romance tradicional, onde a história é contada por todos os seus personagens?

R: Acho que cada pessoa tem uma maneira de ver aquela que está seguindo o seu sonho. Na Bruxa de Portobello, Athena – como personagem que se entrega, que se dedica a seguir seu sonho – poderia ser facilmente analisada através de uma estrutura convencional de livro. Mas eu preferi colocar outras pessoas olhando para ela, aquela que arriscou, e cada um julgando à sua maneira e dentro de suas condições pessoais. Temos então o homem apaixonado, a mestra, a discípula, os mestres que ela encontra durante o caminho, todos refletindo a Athena e o seu mundo e, ao mesmo tempo, refletindo sobre eles mesmos.

P: Mas não é uma maneira difícil para o leitor?

R: O meu leitor é muito inteligente, não é uma maneira difícil, cada depoimento se encadeia no outro de modo a criar uma história. Meu leitor é uma pessoa capaz de entender muito bem as coisas que eu quero dizer porque é, sobretudo, uma pessoa sensível e antenada com o momento presente.

P: Qual é a mensagem da Bruxa de Portobello?

R: Um livro é muito mais complexo do que uma mensagem, ele não pode ser resumido em uma mensagem. Ele procura abordar os diversos aspectos da vida de uma pessoa normal que está em busca de um sentido para os seus dias.

d62.jpgP: Qual é o caminho traçado pela personagem central, Athena, ao longo do livro?

R: Apesar de sua infância traumática, Athena é criada em berço de ouro e é uma pessoa que está muito consciente do que não quer fazer, embora nem sempre ela saiba o que quer fazer. Então ela vai passo a passo, lentamente, se aproximando da sua lenda pessoal, da sua história, da sua razão de viver. Athena, por exemplo, vira mãe, cria um filho e isso não a impede de dar nenhum passo. Muitas vezes eu escuto pessoas dizerem que o filho e o marido atrapalham. Eu estou convencido de que qualquer pessoa que te ame – seja o marido, o pai ou o filho -mesmo que saiba que você tinha outra escolha e preferisse essa escolha, vai te apoiar nas decisões. E, no final, essa pessoa vai ficar contente porque você está contente.

P: Qual é o sentido da busca de Athena?

R: O sentido da busca de Athena é o sentido da busca de todos nós. No começo as coisas aparecem muito claras. A gente sabe o que não quer, sabemos com o que não estamos contentes, mas a gente não sabe exatamente o que nos deixa felizes. Nesse caso, a primeira coisa a fazer é abandonar tudo aquilo que lhe deixa infeliz e começar seu caminho. O caminho está marcado pelos sinais que as pessoas começam fazendo como Athena, uma coisa que lhe dá prazer e pouco a pouco o caminho vai se pondo.

P: Na sua opinião, qual é o sentido da vida?

R: Cada pessoa tem consciência do sentido da sua vida. Ela sabe quando está próxima desse sentido quando ela tem entusiasmo, quando ela coloca amor no que está fazendo. Ela sabe que está longe quando cada dia aparece um outro e não existe nenhuma motivação especial que lhe dê alegria. Portanto é impossível generalizar dizendo que o sentido é esse ou aquele, já que existem tantos sentidos quanto habitantes no planeta Terra.

d6a.jpgP: Athena procura viver esse amor e paga um preço muito alto.

R: Sem dúvida. Não apenas ela, mas todas as pessoas que estão na vanguarda dessa nova compreensão, desse novo comportamento. Essas pessoas, embora não estejam sozinhas, acabam pagando um preço alto. Tudo nessa vida tem um preço e todo preço é alto. Negando os seus sonhos, você pode pensar que está escolhendo uma vida mais confortável e segura, entretanto não é bem assim. Você está renunciando a muita coisa para não viver aquilo que lhe foi estabelecido como destino, como lenda pessoal na Terra. O preço não é tão visível no momento mas, no final da sua vida, aqueles que não pagaram para viver os seus sonhos terminam tendo um sentimento de amargura. Os outros que pagaram o preço para viver os seus sonhos estão em constante combate e isso significa momentos de vitória, de alegria, momentos de derrota, de dor, de tristeza, mas todas essas derrotas ou alegrias fazem parte de um plano maior. Um guerreiro olha isso e não se vê jamais como vítima, como uma pessoa que sofreu o que aconteceu. Ele passa por momentos difíceis, mas não fica estacionado nele, então o preço é alto seja vivendo os seus sonhos ou seja renunciando a eles. Ou você paga a força, ou você paga no final, mas de uma maneira ou de outra você vai pagar este preço. Na minha opinião, é melhor pagar o preço dos seus sonhos e a sua vida vai ser muito interessante.

P: Athena larga tudo para ir de encontro a um sonho. Você acha isso válido?

R: Eu acho que todo mundo deve largar tudo e ir em direção ao seu sonho. Eu sou um exemplo disso porque jamais se poderia imaginar que um escritor brasileiro poderia viver de literatura, pudesse ser traduzido e durante muito tempo da minha vida eu tentei fazer duas coisas que eu não confiava totalmente: na possibilidade de me entregar e conseguir. Entretanto, pouco a pouco eu fui me dando conta que se eu procurasse fazer duas coisas eu ia sempre dar prioridade àquela que me dava segurança financeira do que aquela que me daria realmente alegria de viver. Logo depois que eu fiz o Caminho de Santiago, há 20 anos, eu resolvi então parar e arriscar tudo. Quem não arrisca tudo nunca chega aonde tem que chegar. A vida é uma aposta no escuro. Você sempre ganha quando os seus dias têm alegria e significado. E você sempre perde quando apesar de você ter todos os valores que a sociedade te propõe você não tem alegria e nem significado para aquilo que você está fazendo.

P: O livro toca muito no tema da grande-mãe, certo?

R: Está absolutamente correto. No início a divindade não tinha sexo, ela era pai e mãe. O seu lado masculino cuidava da disciplina das tribos e o seu lado feminino tinha uma compreensão muito ampla, muito aberta. Não havia tempo nessa época, havia apenas as estações do ano e o homem seguiu o seu caminho de acordo com as suas próprias necessidades. Ele não podia localizar Deus em um lugar, Deus estava em todas as partes. A partir do momento em que é descoberta a agricultura, o homem se estabelece, deixa de ser nômade, passa a ser sedentário e começa a atribuir lugares a deuses ou deusas. Pouco a pouco, entretanto, as necessidades de disciplina de uma tribo se sobrepõem à necessidade da contemplação, já que agora ele não é obrigado a viajar, ele precisa se organizar e, a partir daí, vamos estabelecendo a tradição de um deus masculino, um deus rigoroso, um deus que tem regras de comportamento, que são profundamente ligadas à religião.

P: O mundo está aberto para a idéia da grande-mãe?

R: Eu penso que cada vez mais. Acho que de repente a grande revolução do ser humano é justamente, além de manter a disciplina, claro, despertar este lado da compaixão, do sexto sentido, do amor puro, que é um amor revelador; um amor que te leva a compreender coisas com o coração, embora nem sempre a sua lógica acompanhe. Hoje em dia, nós temos duas tendências: uma é profundamente fundamentalista – as pessoas estão negando muito qualquer responsabilidade individual nessa busca espiritual, então as religiões mais tradicionais se fortalecem com o excesso de rigor. E por outro lado existe uma parte da população que está entendendo que, embora o rigor seja necessário, também é preciso uma maior compaixão. É necessário aceitar que o amor revela, o amor nos faz compreender coisas através do coração e nos permite ver a vida de uma maneira diferente. Nós temos visto isso em diversos lugares do mundo, todos nós, todas as pessoas vivas. Cada vez o ser humano está mais voltado para a natureza, para a simplicidade, para essa contemplação. Sempre respeitando o mistério da vida, mas entendendo que o famoso sentido da vida é o amor. Um místico, um pastor protestante, do final do século XVIII, diz que quando nós morrermos e estivermos diante de Deus, Ele não vai perguntar das nossas faltas ou o que fizemos de errado. Não vai perguntar nem das faltas e nem da virtudes. A pergunta central de Deus, ou da deusa, ou da divindade, será se usamos a nossa vida para amar bastante. Essa será a pergunta que teremos que responder: se fomos capazes de utilizar a nossa vida para exercer o amor à deusa, ao próximo e a tudo aquilo que a gente faz.

P: Você afirma em todas as suas entrevistas que é católico e a Igreja não admite muito essa presença feminina.

R: Eu estive recentemente na Abadia de Melk, na Áustria, conversando com monges beneditinos. A Igreja, no meu entender, adora a Nossa Senhora de uma maneira como nenhuma outra religião adora o lado feminino. A nossa Igreja reage um pouco à idéia de Deus mãe, embora o Papa João Paulo I, em uma de suas encíclicas, tenha falado que Deus é mãe. Aí, eu conversando com uma das pessoas que conheço nessa abadia, que considero o meu mestre, o abade Puccard, perguntei a ele o motivo de a presença feminina não ser bem aceita pela nossa religião. Ele respondeu que é apenas por tradição e que um dia chegaremos lá. Fiquei muito surpreso quando o abade superior disse vamos chegar lá e acrescentou que nas preces beneditinas que remontam há séculos, em uma prece, a do meio-dia, eles se referem à Deus mãe. Acredito que a tendência da Igreja Católica é aceitar isso, embora como todas as tradições, custe um pouco a chegar lá.

P: Antes mesmo do lançamento de A bruxa de Portobello, você colocou muitos capítulos gratuitos no seu blog na Internet. Você não teme perder leitores com isso?

R: Muito pelo contrário. Eu acho que o leitor tem o direito de saber o que ele está comprando e a Internet permite isso, permite que ele leia alguns capítulos e depois tome a decisão. Eu posso dar um exemplo muito concreto: a época em que na Rússia os meus livros estavam sendo pirateados e comercializados sem autorização. Era muito difícil a distribuição lá, por isso, eu coloquei O Alquimista de graça na Internet para os meus leitores russos. E eles leram o livro e a partir daí começaram a se interessar pelo meu trabalho e começaram a comprar meus livros. Eu penso que a Internet é um território livre, onde todos têm direito a princípios básicos, entre os quais o prazer. Se a pessoa pode comprar, ela vai comprar, porque é muito mais agradável ler um livro físico do que na tela de um computador. Se ela não puder comprar, mesmo assim ela tem o direito ao acesso a esse trabalho. Eu entendo que eu tenho a obrigação de permitir esse acesso.

P: A literatura pode mudar o mundo?

R: O leitor pode mudar o mundo e não a literatura.

P: Então qual é a importância da arte nos dias de hoje?

R: Num momento em que as pessoas já não se entendem sobre o plano político, econômico, religioso, onde as barreiras são cada vez maiores, num mundo que tende para a polarização, o radicalismo, a arte é a última ponte intacta e que permite que culturas diferentes se compreendam. Então, talvez seja muito difícil compreender a cultura, o sistema político e religioso do meu vizinho, mas eu vou sempre compreender a história dele, a música dele, o balé dele, a pintura e enquanto houver esta ponte haverá a possibilidade de diálogo.

P: Quais as suas expectativas de venda para A bruxa de Portobello?

R: Na verdade, eu sempre tenho somente uma expectativa quando termino um livro: é saber se eu fiz um bom trabalho. E eu fiz um bom trabalho. Essa expectativa foi cumprida por minha parte. Cabe agora ao leitor decidir. Mas o meu dever é com o amor que eu tenho pelo o que eu faço e eu ali botei todo o meu amor, e isso me deixa contente e satisfeito.

P: Você já lançou vendeu mais de 75 milhões de livros no mundo, não fica um pouco assustado com o fato de não agradar o leitor com seu último trabalho?

R: Em primeiro lugar, um livro para mim é um desafio. Eu falava em outra pergunta sobre ter um sonho. Meu sonho não é chegar a um sonho e sim ter um. Se o meu sonho era ser um escritor, evidente que a minha obrigação é escrever livros e não apenas viver dos sucessos passados. Eu gosto desse desafio. Em segundo lugar, eu escrevo para compreender melhor a mim mesmo, eu estou em busca do entendimento da minha alma. No momento em que eu sento na frente do computador é como se uma porção de perguntas que eu tivesse feito se manifestasse naquele momento na tela. Eu graças a Deus ainda sou um mistério para mim mesmo. Então eu não posso nem tentar agradar a mim e nem ter medo do que eu estou pensando. Eu tenho que procurar mostrar o que o meu coração tem vontade de mostrar, mesmo eu sendo o primeiro a ver e, se aquilo me agradar, estarei contente. Uma vez feito isso, tenho certeza que o leitor verá o livro como um elemento catalisador que provoque nele perguntas e não respostas. Eu não acho que o leitor busque respostas nos meus livros porque resposta é muito fácil de achar, mas acho que ele busca as boas perguntas, aquelas perguntas que eu tenho quando me sento para escrever.