João Vidal, professor

Por que a vida musical brasileira privilegia tanto a produção europeia do passado e do presente, em detrimento da criação brasileira, mesmo aquela com vínculos fundamentais com o vocabulário e a gramática europeias?

A avaliação negativa deste repertório por parte dos modernistas pesou, pois influenciou na formação do senso comum das plateias brasileiras, mas eu destacaria em primeiro lugar, e isso vale para toda a música do século 19 e mesmo depois, o fato de no Brasil estarmos ainda iniciando o processo de estabelecer todo o aparato necessário à apresentação da obra musical do período: departamentos e institutos de musicologia que formem profissionais capazes de pesquisar e editar criticamente obras que ainda se encontram em manuscrito em bibliotecas e acervos particulares e reeditar edições de época; editoras que publiquem esse material; músicos, conjuntos e orquestras que o toquem; e, por fim, um público que a ‘consuma’.

Orquestras e regentes reclamam que, em muitos casos, não há partituras confiáveis. Como mudar isso?

É um processo vagaroso que deveria receber do Estado um apoio mais expressivo e explícito: não há ainda edições completas ou mesmo catálogos temáticos para muitos dos nossos mais importantes compositores, e isso não vai acontecer sem o tipo de investimento financeiro que se vê ser destinado à mesma atividade na Alemanha, por exemplo. Assim como uma orquestra não se faz só com bons músicos e salários condizentes, mas também com salas de concerto, técnicos para manutenção de equipamentos e assim por diante, o resgate e valorização do passado musical brasileiro não se fará sem toda a economia que gira em torno disso. De outro modo estaremos fadados a ignorar este passado, e o desconhecimento da música de compositores como Alberto Nepomuceno ou Leopoldo Miguez é equivalente ao desconhecimento da literatura de Machado de Assis ou da poesia de Castro Alves: algo inaceitável.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.