Pode ser que a expressão carregue alguma força negativa e seja considerada incorreta. “Fare il nero”, fazer o negro, a sombra. Paolo Virzi chegou muito jovem a Roma, querendo viver o sonho do cinema. Havia acompanhado de longe, de Livorno, o apogeu, conheceu a decadência dos maestros. Foi fazer o negro para Dino Risi, uma espécie de escritor fantasma do grande nome da comédia italiana. “Estava cheio de entusiasmo, o idealismo da juventude, você sabe. E Dino tinha um prazer sádico em destruir meus sonhos. Dizia para Vittorio (Gassman), para Ugo (Tognazzi) – ‘Esse garoto vai apanhar muito, se continuar acreditando na ilusão do cinema.’ Era um gênio, Dino.”

Paolo Virzi conversa pelo telefone – mais uma vez – com o jornal O Estado de S. Paulo. Da última vez, estava no interior dos EUA, filmando Ella e John. Agora é para falar de Noite Mágica, que integra a programação da 8 ½ Festa do Cinema Italiano. Como já vem se tornando tradição, o Festival Varilux do Cinema francês encerra o primeiro semestre e o segundo começa enfileirando uma sucessão de outras manifestações cinematográficas nacionais – temáticas? Na sequência do Festival Latino, até quinta, começa no domingo o Festival de Cinema Judaico, que engrena com a Mostra Árabe e a Festa 8 ½ do Cinema Italiano. São Paulo, capital da diversidade.

A ‘festa’, de 8 a 14 de agosto, deve trazer à cidade Marco Tulio Giordana para apresentar a versão restaurada de O Melhor da Juventude. As atrações estão listadas abaixo. O filme de Paolo Virzi integra a seleção de inéditos. O diretor investiga os bastidores do cinema italiano, que conhece tão bem. Um importante produtor é assassinado. Três jovens roteiristas são suspeitos do crime. Teriam usado sua ‘expertise’ como escritores para tentar o assassinato perfeito. Giancarlo Giannini faz o produtor, os estreantes Mauro Lamantia, Giovanni Toscano e Irene Vetere formam o trio. “Era absolutamente necessário que os protagonistas fossem desconhecidos do público. Fizemos um casting intenso. Os garotos vieram de escolas e grupos de teatro; ela, do liceu.” E Giannini? “Giancarlo é um grandíssimo ator, e para falar a verdade virou um sobrevivente no cinema italiano. Seus grandes filmes com La Wertmüller pertencem à história dos anos 1970. Trabalhou com (Luchino) Visconti em seu último filme, O. Seria um típico papel para Gassman, Tognazzi, mas já se foram. Um personagem maior que a vida exige um ator capaz de expressar a desmedida.”

Virzi ou o próprio Giannini basearam-se em produtores de verdade para criar o personagem? “O filme está inspirado em muitas lembranças minhas, e dele. Foi divertido voltar-me para memórias de juventude, para um cinema que não existe mais.” O produtor tem algo a ver com figuras lendárias como Carlo Ponti, ou Dino De Laurentiis? Além de terem forjado impérios no cinema italiano, foram casados com estrelas do porte de Sophia Loren e Silvana Mangano? “Nada que mereça ser destacado especificamente, mas, sim, eu diria que nossa observação, de Giancarlo e minha, impregnou o filme. As cenas estavam escritas e, às vezes, na hora de filmar, Gian me dizia ‘Você se lembra, Paolo?’ E desfiava alguma história interessante que valia resgatar. Mas você está reduzindo muito o arco de possibilidades. Silvio Clementelli, Mario Cecchi Gori, Goffredo Lombardo, que herdou o império herdado do pai, Gustavo, a Titanus, que produziu os maiores filmes de Visconti. Tivemos grandes diretores, figuras míticas na Itália, e o filme, mesmo quando quer ser crítico do personalismo e autoritarismo dos grandes produtores, também respira uma espécie de nostalgia. Porque esses homens, por mais negociantes que fossem, tinham paixão pelo negócio e sabiam estar lidando com grandes artistas.”

As mudanças no cinema viram o tema da conversa. Justamente no dia da entrevista – por telefone – havia saído a lista dos filmes que compõem a competição da Mostra de Arte Cinematográfica de Veneza, da qual, este ano, Paolo Virzi é jurado. “Teremos uma competição forte, cheia de grandes diretores. Roman Polanski, Olivier Assayas, James Gray, Hirokazu Kore-eda. O festival disponibiliza que a gente comece a ver os filmes antes. O clima de um festival é sempre muito agitado, muito intenso.” E a representação italiana?
“Teremos novos filmes de Mario Martone, que vocês certamente já conhecem no Brasil, e também de Pietro Marcello e Franco Maresco, que podem ser menos conhecidos, mas muito interessantes.” O júri será presidido por uma mulher, Lucrécia Martel. Qual é a expectativa de Virzi? “Lucrecia fez La Ciénaga, O Pântano, que é um grande filme. Você viu Loucas de Alegria. Gosto muito da energia das mulheres. Creio que teremos uma temporada gostosa em Veneza.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.