Tem pai severo, generoso, babão. Pai solteiro, garotão e até gay… De fato, a variedade de “papais” na ficção às vezes extrapola a realidade. Mas não dá para negar que, a cada capítulo de novela, a presença paterna ganha mais destaque.

Pode ser um sinal dos tempos. Afinal, os papais da sociedade moderna estão cada vez mais envolvidos com fraldas e mamadeiras, dividindo com as mães a responsabilidade de criar a prole. Muitas vezes, assumem até os dois papéis. São do tipo “dois-em-um”. Neste time, jogam por exemplo o dedicado Edu, de “Coração de Estudante”, o enrolado Afonso, de “Malhação” e o efeminado Ariel, de “Desejos de Mulher”. Este último, um pai solteiro, atencioso e gay. “Mas isso é apenas um detalhe… O importante é que ele a-do-ra a filha”, diverte-se seu intérprete, José Wilker.

O autor de “Desejos de Mulher”, Euclydes Marinho, concorda. Mas defende que, para um pai da ficção arrebanhar a simpatia do público, deve ter, necessariamente, um “toque” feminino. “Um bom pai, na novela ou na vida real, deve ter sensibilidade para entender o filho. E esse é um dom próprio da mulher”, explica. Mesmo assim, o autor jura que não se inspirou em ninguém conhecido. “Mas com certeza existem muitos pais como o Ariel por aí”, arrisca, contendo o riso.

Manipulável, amoroso…

Outro tipo que de vez em quando aparece – geralmente em tramas hispano-americanas – é o pai manipulável e mulherengo. Como o milionário Leonardo do Vale, de “Marisol”, do SBT. Como se não bastasse sua personalidade tíbia, o genitor do galã Rodrigo – Carlos Casagrande – é interpretado pelo ator Roberto Arduin, conhecido nacionalmente como o “Tio Sukita” da campanha de refrigerantes. O que ainda ajuda a ressaltar o ar meio saliente de Leonardo.

Longe de lolitas tentadoras e perto da vassoura e do fogão está o pai “do lar”, personificado no papel de André de Biase em “Malhação”. Vítima do desemprego e da emancipação feminina, Vinícius revela-se um pai amoroso e “dono-de-casa” prendado. Para contar mais essa história nas mil e uma tardes de “Malhação”, a autora Andréa Maltarolli não abre mão de fatos cotidianos como inspiração. E acredita que os relacionamentos entre pais e filhos rendem sempre boas tramas. “Quero fazer um programa para toda a família. Por isso, falo do jovem e de todos que cercam esse jovem. E, hoje em dia, o pai está cada vez mais presente na vida do filho”, acredita.

Pai arrependido é Genaro, vivido por Raul Cortez em “Esperança”. O italiano turrão brigou com o filho Toni, personagem de Reynaldo Gianecchini, porque não admitia seu namoro com a filha de Giuliano – Antonio Fagundes -, outro pai italiano e cabeça-dura da novela. Agora, reconhece que extrapolou e revira a São Paulo dos anos 30 à procura de seu rebento. Mas Toni deu sorte e faturou um sogro que é uma verdadeira mãe: o judeu Ezequiel, vivido por Gilbert Stein, em “Esperança”. Na trama de Benedito Ruy Barbosa, ele é o pai de Camilli, de Ana Paula Arósio, e o sogro dos sonhos de Toni. O espírito acolhedor, e até algumas expressões – como o “Oi, oi, oi, oi,oi…” – Gilbert copiou de seu falecido pai, um jornalista judeu e austríaco, que deixou o Egito com toda a família devido à perseguição religiosa. “Com este personagem, presto uma homenagem a ele e à minha mãe também”, diz, emocionado.

Histórias em família

# Victor Fasano já é veterano em virar pai por inseminação artificial. Antes de Tavinho, em “O Clone”, o ator já havia procriado com a ajuda da Ciência em outra novela de Glória Perez. Foi na pele do Zeca, de “Barriga de Aluguel”.

# “O Beijo do Vampiro” também terá sua versão “paternal”, na pele – e sangue -do vampirão Bóris, vivido por Tarcísio Meira. Ele tem um filho que cresceu camuflado numa família normal para ficar protegido das maldades da vampira Mina, de Cláudia Raia. Mas, em breve, o garoto – vivido por Kayke Britto – completa 13 anos e pode ficar mais forte que o pai.

# Marcos Pasquim é o preferido do autor Carlos Lombardi para fazer valer o lema divino: “Crescei e multiplicai-vos!”. Em “Uga Uga”, seu personagem Van Dame arranjou uma penca de filhos, só superada pelos incontáveis herdeiros de Dom Pedro em “O Quinto dos Infernos”. Nos dois casos, porém, mostrou-se um pai amoroso.

# Paulo Goulart já contracenou com a mulher, os três filhos, a sogra e o genro em uma novela. Foi em “Papai Coração”, exibida na Tupi em 1977.

# Em “Pai Herói”, Toni Ramos fez muita gente chorar na pele de André Cajarana. O jovem lutou até o último capítulo para inocentar o passado do pai na novela de Janete Clair, exibida na Globo, em 1979.

Para todos os gostos

# Pai-solteiro – Desdobra-se para criar o filho, abandonado pela mãe.Após anos, maneja com destreza fraldas e mamadeiras, mas tem dificuldades em arranjar uma namorada. O Edu, personagem de Fábio Assunção em “Coração de Estudante”, é um caso típico.

# Pai-gay – Pode ser um bom pai, mas exagera no seu lado feminino. É o caso do assumidíssimo Ariel (José Wilker), em “Desejos de Mulher”.

# Pai-manteiga – Tenta se fazer de durão, mas se derrete todo ao primeiro beicinho da cria. Um pai que é uma verdadeira mãe, para a filha e o genro, é o Ezequiel (Gilbert Stein), de “Esperança”.

# Pai-garotão – Está sempre competindo com o filho para ver quem está mais em forma. Com “tudo em cima”, pode ser o Tavinho (Victor Fasano), de “O Clone”, ou como César (Kadu Moliterno), de “Malhação”. Se for “caído”, corre o risco de ser chamado de “tio sukita”.

# Pai-do-lar – Não consegue emprego e passa a se dedicar ao lar, enquanto a mulher garante o sustento. Um bom exemplo desse tipo é o Vinícius (André de Biase), de “Malhação”.

# Pai-durão – Faz cara feia quando a filha arranja um namorado e é capaz de crivar de balas o atrevido. Anda em extinção nas tramas contemporâneas. Giuliano (Antonio Fagundes), de “Esperança”, e João Mourão (Claudio Marzo), de “Coração de Estudante”, pertencem ao time.