Todo ano, até para se proteger, os críticos fazem seus prognósticos e acrescentam a ressalva – o prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood é uma caixinha de surpresas. Mais de uma vez azarões ganharam de favoritos declarados, o que não tem ocorrido com freqüência ultimamente. No ano do Oscar mais político da era George W. Bush, quando Hollywood sai do armário também contra o presidente que usa o 11 de Setembro e a guerra para impulsionar uma agenda em que a ideologia é, cada vez mais, substituída por vantagens econômicas para o grupo no poder, será surpreendente se os favoritos não saírem do Kodak Theatre com suas estatuetas douradas. O Estado analisa as chances de cada indicado nas categorias que mais interessam: filme, direção, ator, atriz, ator coadjuvante e atriz coadjuvante.

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FILME

Nove entre dez especialistas do Oscar apostam no que parece óbvio – a vitória de O Segredo de Brokeback Mountain na categoria principal. Há uma rara unanimidade em torno do filme que Ang Lee adaptou da história curta de Annie Proulx. Brokeback Mountain não é o melhor deste Oscar, mas alguns elementos explicam, senão justificam, a comoção que se criou em torno da obra que soma vários indicadores (Globo de Ouro, Bafta, diversos prêmios dos críticos).

O marketing que transformou Brokeback Mountain em western gay é inexato. O filme não é western, os caras não são pistoleiros nem mesmo caubóis. São pastores de ovelhas. Mas o universo que encarnam e os padrões comportamentais são os mesmos celebrados pelo western, como gênero americano por excelência. Eles se amam vivem 20 anos infelizes e o filme aponta o dedo para a repressiva sociedade do Meio-Oeste, a mesma que garantiu a reeleição de Bush com base no decidido veto do presidente aos projetos de casamentos entre gays.

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Brokeback Mountain não faz sucesso apenas nos grandes centros urbanos dos EUA, mas também em comunidades interioranas, o que indica que Ang Lee e seus atores (heteros de carteirinha, Heath Ledger e Jake Gyllenhaal) souberam atingir até as platéias mais conservadoras. Neste sentido, a vitória (quase certa) do filme será importante, mas não estará premiando o melhor dos cinco indicados. O melhor e mais forte de todos é Munique, de Steven Spielberg, que se arrisca a sair do Kodak Theatre sem uma estatueta de consolação. Munique é ataque poderoso à política antiterror do atual governo americano, usando o episódio da caça aos terroristas que mataram atletas judeus na Olimpíada de 1972. Há críticos que acham que Spielberg justifica a caçada ao pôr frases complexas sobre o estado de direito na boca da premier Golda Meir. É o que dá fazer cinema adulto para críticos infantilizados. O real tema do filme é a perda da alma dos homens que se destoem perseguindo os terroristas árabes, tornando-se exatamente iguais a eles. Spielberg, desta vez, está na contramão do lobby judaico, que não gostou de Munique e gostaria de ver o diretor arder no inferno pelo que considera sua ambivalência.

Outros dois filmes também representariam escolhas honrosas da academia – Boa Noite e Boa Sorte, de George Clooney, faz um ataque ao macarthismo que tem a ver com uma discussão sobre o papel da mídia aqui e agora; em Capote, o diretor Bennett Miller capta seu biografado num duplo movimento. Truman Capote quer deixar de ser o escritor de personagens frívolas como a de Bonequinha de Luxo para criar uma nova modalidade séria de literatura, a não-ficção, com A Sangue-Frio. E é o gay, no limite da afetação, que precisa se fazer respeitado pela mesma sociedade do Meio-Oeste que trucida moralmente os rapazes de Ang Lee. Se isso não é político, o que merecerá a definição? O azarão dos azarões é Crash – No Limite, de Paul Haggis, o roteirista de Menina de Ouro. Se vencer, o Oscar de 2006 terá de ser impugnado.

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DIRETOR

Ang Lee ganhou todos os indicadores e é favorito por Brokeback Mountain (Globo de Ouro, Liga de Diretores, Bafta). Spielberg será atropelado pelo lobby anti-Munique. Bennet Miller e Clooney seriam escolhas defensáveis por Capote e Boa Noite, mas em Berlim, Clooney disse, resignado, que vai perder. E Paul Haggis, de Crash, já deve se dar por satisfeito com a exposição que está tendo na mídia.

ATOR

Philip Seymour Hoffman, por Capote, é o favorito dos favoritos. Se outro subir ao palco para receber o prêmio, terá de iniciar seu discurso pedindo desculpas ao ator que está excepcional e já ganhou tudo – Bafta, Globo de Ouro, prêmio da Liga dos Atores, dos críticos de Los Angeles e do National Board Review. Hoffman só não ganhou o prêmio dos críticos de Nova York, que foi para Heath Ledger, por Brokeback Mountain. Ledger é jovem, talentoso, arrisca a aura de galã num papel de gay. Não haveria do que reclamar se ganhasse, mesmo que o vencedor ?moral? continuasse sendo o ator de Capote. Escolha surpreendente, mas boa, seria a de David Strathairn, impecável em Boa Noite. Joaquin Phoenix, que faz Johnny Cash em Johnny & June, tem contra si a vitória de Jamie Foxx, no ano passado, por Ray. Para Terrence Howard, já é uma vitória ficar entre os cinco, por Ritmo de Um Sonho.

ATRIZ

Judi Dench é, disparada, a melhor atriz, por Senhora Henderson Apresenta, mas o Oscar nada mais acrescenta à sua carreira. A provável vitoriosa será Reese Witherspoon, por Johnny & June, que já ganhou o prêmio da crítica de NY, o da Liga dos Atores, o Globo de Ouro e o Bafta. Reese é boa de bilheteria, loira, jovem e talentosa, concorrendo num papel que lhe exigiu certo grau de transformação física – tudo o que a academia gosta. Keira Knightley é maravilhosa em Orgulho e Preconceito e o filme também é muito bom, aliás, ótimo. Felicity Huffman foi premiada pelo National Board Review e pelo Globo de Ouro, dois prêmios importantes, por Transamérica. Faz uma transexual, o que está na tendência do Oscar deste ano. Charlize Theron se esforça, mas Terra Fria não ajuda e ela derruba a própria candidatura no desastroso Aeon Flux.

ATOR COADJUVANTE

Esqueça as opções. A chance de a academia se redimir com Clooney é dando-lhe o Oscar da categoria, por Syriana. Ele está por trás de dois dos principais indicados (Boa Noite e Syriana), é bonitão, talentoso e representa, melhor que ninguém, a politização do Oscar deste ano.

ATRIZ COADJUVANTE

A torcida brasileira é por Rachel Weisz, atriz de Fernando Meirelles, com um belo papel em O Jardineiro Fiel. A melhor é Caroline Keener, que representa a consciência de Capote, mas Michelle Williams pode ajudar a engrossar a lista de prêmios para Brokeback Mountain.